Trânsito raro nas artes cênicas

É sempre louvável a iniciativa do intercâmbio cultural nas artes cênicas como a que se dá na 5ª Mostra Latino-Americana que começa hoje no Centro Cultural São Paulo com a participação de companhias da Argentina, Peru, Colômbia e ainda de diferentes Estados do Brasil como Piauí, Santa Catarina e Minas Gerais, deste último um espetáculo da cidade de Uberlândia.

Beth Néspoli, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2010 | 00h00

Afinal, o trânsito de montagens teatrais envolve logística sempre complexa pela natureza presencial dessa arte realizada e exibida em tempo real, de criação única a cada sessão. Como definiu com uma imagem de rara felicidade a alemã Margot Berthold no prólogo de seu livro História Mundial do Teatro - como uma vela o teatro consome a si mesmo no ato de criar a luz.

Reflexos. Se para o público importa a oportunidade de ver espetáculos vindos de longe, o aspecto de "vitrine" é apenas "mais um" e não necessariamente o mais relevante para os organizadores dessa mostra que reunirá de hoje a domingo 200 artistas de 11 companhias. "O encontro entre os participantes, a troca de experiências e os possíveis reflexos na prática diária dos grupos é a principal motivação para esse investimento", diz Ney Piacentini, presidente da Cooperativa Paulista de Teatro, entidade idealizadora do evento.

"Ao contrário do que ocorre na grande maioria dos festivais, em que os artistas permanecem o tempo necessário para suas apresentações, nessa mostra os integrantes das companhias chegam no primeiro dia e permanecem por todo o tempo de programação. A cada manhã uma das companhias realiza demonstração de trabalho, para os demais artistas, num evento aberto ao público interessado, em especial estudantes de teatro, com entrada grátis", explica Piacentini.

Para que a troca de experiências seja realmente produtiva, ele ressalta que a parcela nacional da programação traz, por exemplo, alguns espetáculos de cidades cuja cena tem poucas oportunidades de circular como Teresina, Uberlândia e Florianópolis. "Numa cena europeizada como a nossa pode ser enriquecedora a troca de ideias com artistas cuja estética se filia a uma tradição popular como o Grupo Harém de Teatro que traz o espetáculo Raimunda Pinto, Sim Senhor! que encerra mostra."

Promete ser bem diferente o espetáculo de abertura, que vem do Chile, e conta uma história ambientada no período da ditadura franquista na Espanha. Em sua quinta edição o aspecto da busca de expressão mais diretamente política por meio do teatro promete perpassar quase todos os espetáculo desse evento patrocinado pela Petrobrás, com copatrocínio do programa de ação cultural (Proac) da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, da Caixa Econômica Federal e do Ministério da Cultura, por meio da Funarte.

A programação inclui ainda palestras e debates, com participação grátis. O primeiro deles ocorre ainda hoje e conta com a participação de Guillermo Heras, representante do fundo ibero-americano para as artes cênicas, o Iberescena, convidado a vir ao Brasil pelo Centro Cultural da Espanha que discutirá a formação de uma liga latino-americana de teatro. Participam ainda desse primeiro encontro o mineiro Marcelo Bones, diretor do Centro de Artes Cênicas da Funarte; Carlos Zatizabal, representante da Corporação Colombiana de Teatro e Piacentini.

Quem acompanhou a edição anterior da mostra deve lembrar da presença do grupo mineiro Galpão, que apresentou no evento o processo de criação de seu espetáculo Till, que só viria a estrear mais tarde. "Foi uma experiência muito bem-sucedida que atraiu o público e foi produtiva para o grupo, daí decidimos repeti-la, trazendo outra montagem ainda em preparação."

Em processo. Desta vez, o escolhido foi o Grupo Tá na Rua, dirigido por Amir Haddad, que está criando um espetáculo sobre a mais recente crise financeira mundial, cujo título provisório é A Alegria do Palhaço É Ver o Circo Pegar Fogo. A trupe vai também lançar o livro Teatro Sem Arquitetura, Dramaturgia Sem Literatura, Ator Sem Papel, sobre as ideias fundadoras da estética do premiado e longevo Tá na Rua.

O espectador da mostra contará com um jornal diário, com distribuição gratuita, que trará críticas de espetáculos e informações sobre os participantes.

PROGRAMAÇÃO

Hoje

La Gesta Inconclusa - Chile:

18 h - Sala Jardel Filho

Amanhã

Estranhas Galinhas - Uberlândia, Minas:

18 h - Sala Ademar Guerra

Hotel Komarca - Angola:

19 h - Sala Jardel Filho

Quinta

Teruel y La Continuidad del Sueño - Argentina:

18 h - Sala Jardel Filho

Cidade Desmanche - São Paulo:

18 h - Espaço Maquinaria

Sexta

Rosita Contratodo - Colômbia:

21 h - Sala Ademar Guerra

Los Ríos Profundos - Peru:

21 h - Sala Jardel Filho

Sábado

Alegria do Palhaço É Ver o Circo Pegar Fogo - Rio:

14 h - Ensaio aberto - Sala Adoniran Barbosa

Livres e Iguais - Santa Catarina:

17 h - Sala Ademar Guerra

Aire Frío - Estados Unidos:

21 h - Sala Jardel Filho

Domingo

Raimunda Pinto, Sim Senhor! - Piauí:

19 h - Sala Jardel Filho

Grátis

Centro Cultural São Paulo

Rua Vergueiro, 1.000, telefone 3397-4000

Espaço Maquinaria

Rua Treze de Maio, 240, telefone 3853-3651

Mais informações:

www.centrocultural.sp.gov.br

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