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Transições

Viver é aprender a conjugar frustrações com saídas passageiras, porque estamos todos de passagem

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2022 | 03h00

Seria preciso realizar uma reflexão profunda sobre as transições e os períodos de passagem onde estamos em dois lugares ao mesmo tempo. O melhor emblema disso é se imaginar ganhando a Mega Sena e como a fortuna material seria gasta no sonho de finalmente sair, com as pessoas que amamos, das agruras rotineiras para ter, na nossa ilusão, a “vida resolvida”. Um conceito, aliás, utópico e, quem sabe, brasileiro porque viver é aprender a conjugar frustrações com saídas passageiras porque estamos todos de passagem.

Toda passagem tem seus riscos e algumas, como a de passar de estudante a profissional ou a de entrar ou sair de um emprego, acarretam preocupações que são, em toda sociedade humana, ritualizadas. 

Na minha introdução ao livro clássico que problematiza as transições, Os Ritos de Passagem, escrito em 1909 por Arnold Van Gennep, afirmo que a elaboração ritual dos períodos intermediários vai desde mudar o pijama para vestir a roupa do trabalho até as terríveis declarações de fuzilamento e de guerra. 

Tanto entrar na vida quanto dela sair exigem cerimônias críticas. No fundo, um sábio poderia dizer que o regime democrático, no qual governantes mudam obrigatoriamente de tempos em tempos, é uma renovação fundamental, porque todos temos a esperança de dias melhores para suportar dias piores. Ideia estabelecida de progresso contínuo que esses nossos tempos de poluição suicida, guerra ideológica, burrice extremada, possibilidade de destruição em massa, e uma clara noção dos limites do modo de produção capitalista, colocam em causa. 

Hoje, estamos vivendo no Brasil “tempos eleitorais”. Momento em que o chamado “poder-político-eleitoral”, que nas democracias tem início, meio e fim, se renova. O eleito muda, mas o sistema continua e o ponto intermediário é uma delicada passagem (ou beco) eleitoral. 

Fase ambígua porque, no caso brasileiro, além das ditaduras que, espero, tenham ido embora para sempre, vivemos por séculos num regime aristocrático engessado no qual uma figura (rei, regente ou imperador) permanecia no cargo por direito divino. Na transição revolucionária das aristocracias para os regimes republicanos baseados na cidadania, existe o período eleitoral cada vez mais presente em todos os lugares. 

Embora rotineiro, trata-se de uma fase transitória e, como tal, ela sugere – além dos contrastes nos programas e estilos de governar – a tentação de ser toldada por alguma vontade espúria. Em outras palavras: por um golpe justificado por um antigolpe que seria o golpe no golpe. Dick Moneygrand diz que não estamos sós como ele pensava quando foi meu mentor... 

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