Transformação no palco

Christophe Charle, Para especialista, teatro acelerou mudanças de costumes

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2012 | 03h10

Pode-se dizer, grosso modo, que A Gênese da Sociedade do Espetáculo é um livro sobre teatro. Mas não exatamente sobre o teatro que conhecemos hoje. O que emerge das páginas do volume, escrito pelo historiador francês Christophe Charle, é a discussão sobre uma arte que já foi fenômeno de massa.

De passagem por São Paulo, o autor participa amanhã de um debate no Centro Universitário Maria Antônia. Ocasião em que irá falar sobre o título lançado recentemente no Brasil pela Companhia das Letras. Em sua pesquisa, Charle flagra o florescimento das casas de espetáculo no final do século 19 em quatro grandes capitais da Europa: Paris, Berlim, Londres e Viena. Um fenômeno que, segundo ele, teria impulsionado o surgimento da primeira grande "sociedade do espetáculo".

Termo que, cabe ressalvar, não é aqui tomado na mesma acepção cunhada por Guy Debord, mas como uma expressão que resume o nascimento de uma formação social na qual pobres e ricos, aristocratas e proletários, passariam a dividir, pela primeira vez, ideias e espaços. Tal transformação relaciona-se diretamente ao crescimento urbano e à demanda de diversão pelas novas classes trabalhadoras. Contudo, mais do que simples distração, esses espetáculos passaram a funcionar como "laboratórios de modernidade". Os palcos prenunciaram o enfrentamento entre os sexos e a liberação feminina. Assim como lançaram as sementes de uma radical transformação moral, social e política. Um vislumbre do que viria a ser a contemporaneidade. "O teatro por si só não fez tudo, mas ele acelerou algumas mudanças de costumes e olhares", disse o estudioso, em entrevista ao Estado.

No livro, o senhor parece evitar histórias sobre grandes astros do teatro e prefere se concentrar em artistas anônimos, ou quase anônimos. O que essa abordagem, menos fetichista que o habitual, revela sobre esse universo? Os livros tradicionais costumam insistir em histórias e biografias de celebridades. Isso dá uma imagem distorcida, baseada exclusivamente em algumas personalidades notáveis. Meu objetivo é encontrar a diversidade interna deste mundo. O status de atores e atrizes mudou radicalmente em um período curto de tempo. Considerados marginais no início do século 19, eles se tornam reconhecidos, próximos às elites e fascinantes para outros grupos. Esse é um dado muito revelador da evolução da sociedade moderna e dos mitos necessários à sua sobrevivência.

Sua pesquisa mostra o show business em seu estágio embrionário. De que forma o teatro antecipa o impacto que as artes do espetáculo e o cinema teriam sobre a vida cotidiana nas décadas seguintes?

A sociedade teatral está em movimento perpétuo: o público muda muito rapidamente e está sempre ávido por novidades. Nesse sentido, as leis de funcionamento que nasceram com o teatro seriam reproduzidas por artes que vieram depois, como o cinema e os programas de televisão.

Ao longo do livro é possível perceber um equilíbrio interessante entre Londres e Paris, ambas em eterna disputa pela posição de capital mundial do teatro. Mas você aponta algumas diferenças entre elas. A figura do empreendedor britânico, por exemplo, que é inexistente no teatro francês.

As duas capitais se assemelham por terem um mercado teatral muito competitivo e um público muito diversificado. São mercados teatrais próximos, mas que diferem em pontos essenciais. Se, até 1984, o controle administrativo é mais forte em Paris do que em Londres, a censura religiosa e moral é mais rigorosa na capital inglesa. Além disso, enquanto Paris exporta suas peças para a Europa, Londres o faz para o império britânico e os Estados Unidos.

Você analisa o impacto do teatro no comportamento. Mostra como os espetáculos mudaram hábitos e a maneira como as pessoas encaravam questões familiares e de gênero. Qual a

proporção desse impacto?

Sabemos que os temas de certas peças suscitaram escândalo, o que resultou em censura ou proibição. Isso mostra como as autoridades políticas e religiosas acreditavam no poder que esses espetáculos exerciam sobre o público. Descontada a dose de exagero que pode haver aí, existem temas tabus que eventualmente se impuseram, a questão da prostituição, da homossexualidade, das doenças venéreas. Na França, por exemplo, numerosas peças que tratavam das bases hipócritas do casamento convencional prepararam o terreno para a lei do divórcio de 1884. O teatro por si só não fez tudo, mas ele acelerou algumas mudanças de costumes e olhares.

Como historiador, você tem condições de fazer perguntas que um especialista em teatro não faria. Como essa abordagem pode nos ajudar a entender certos aspectos pouco explorados desse universo?

Como historiador tento fazer perguntas para identificar padrões, semelhanças e diferenças entre cidades, teatros. O que eu perco em intensidade, ganho em extensão. Sempre tento colocar meus exemplos em relação a contextos mais amplos. Claro que, às vezes, é frustrante não poder abordar cada detalhe, mas ofereço um quadro mais coerente, que os historiadores do teatro podem complementar e enriquecer com novos estudos de caso.

O século 19 assistiu à ascensão de novos temas. Existe a entrada de um componente político em cena. Autores deixam de lado os "assuntos de salão" e passam a tratar da "vida real". Qual foi a repercussão dessa mudança?

Grande parte da cena do século 19 mostra personagens convencionais, alguns privilegiados que utilizavam uma linguagem distante do cotidiano. A grande mudança deste período é o crescente domínio do realismo e do naturalismo, que trouxe para o palco outros tipos de trama, de personagem e de questão. Isso não ocorreu sem problemas ou dificuldades. Mas autores, atores e empresários atendiam à demanda de um público cansado do teatro convencional anterior. Sem as novidades do fim do século 19, todo o teatro politicamente comprometido do século 20, Brecht por exemplo, seria impensável.

A emergência de espaços alternativos nesse período foi um meio de superar os altos custos e as barreiras do teatro comercial. Mas a criação dessas salas também não sinaliza um primeiro distanciamento em relação ao público? Ou foi apenas uma opção de sobrevivência? Como esse movimento repercute na cena teatral da atualidade?

Efetivamente, as formas alternativas ao teatro comercial podem ter um efeito de gueto sobre atores e dramaturgos. Mas aqueles que se saíram melhor acabaram incorporados a quadros mais amplos e escaparam do confinamento original, recebendo o respaldo da imprensa, do governo, de festivais.

Como traçar um paralelo entre a sociedade do espetáculo que emerge no século de 19 e aquela que conhecemos hoje?

No livro, relaciono esses dois mundos. Claro que existe uma diferença. Em particular na quantidade de capital necessária para se fazer uma obra em gêneros como o cinema, a televisão e o show business. No século 19, indivíduos podiam ter uma experiência direta com o teatro e fazer uma produção por sua conta e risco. Hoje, mesmo cineastas com ambições modestas precisam contar com o auxílio público, com mecenas ou produtores desinteressados. Porém, para além da quantidade de dinheiro envolvida, as escolhas a serem feitas continuam as mesmas: inovar, sem se preocupar com o retorno do investimento. Ou mitigar os riscos e agradar ao maior número possível de espectadores. Mesmo nos Estados Unidos - ao lado de Hollywood e dos musicais da Broadway - há pequenas empresas, festivais voltados à pesquisa, um teatro inovador para plateias intelectualizadas. O que mudou, com certeza, é o tamanho da participação do Estado para suportar as artes do espetáculo e, acima de tudo, a subordinação do setor comercial do teatro a conglomerados multimídia, sempre em busca de rentabilidade. Mas isso não é mais do que o efeito das transformações gerais do capitalismo sobre a estrutura das sociedades no século 19 e hoje.

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