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Transatlântica

Não me lembro se foi por telefone ou pessoalmente. Por e-mail, sem dúvida, não foi porque na época, meados dos anos 70, não existia internet. “Tenho uma amiga bacanérrima, lá da PUC, que podia colaborar no jornal, com artigos ou resenhas e até traduções.” Ok, mande ela me procurar, respondi ao poeta Geraldo Carneiro. E assim foi que Ana Cristina Cesar virou colaboradora do semanário Opinião, de cuja seção de cultura eu me ocupava na época. 

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2016 | 02h00

Geraldinho já enriquecera meu time de colaboradores, sugerindo outro amigo, Antonio Carlos de Brito, o Cacaso, também poeta e também morto prematuramente. Ana foi um reforço e tanto. Muito maior do que então me pareceu, constatei agora ao ler, com a devida calma e o recomendável distanciamento, sua coletânea de críticas e resenhas, editada pela Cia das Letras, com vários textos publicados em Opinião e outros impressos que os tempos não trazem mais. Não foi apenas a poesia brasileira que há 33 anos perdeu uma de suas vozes mais distintas; a crítica e o jornalismo cultural também se ressentem do seu precoce sumiço. 

Ana escreveu resenhas, artigos e artigos reportagens com notável acuidade, originalidade, elegância e graça - e aqui emprego a palavra graça também como sinônimo de ironia. Começou armando um debate mais do que pertinente entre professores de literatura, alunos, críticos e escritores sobre o excesso ou não de teoria nas faculdades de letras, sem tomar partido por qualquer dos lados (“uma canoa furada”), pois preferia politizar a questão docente e “rejeitar os traços sadomasoquistas da relação do aluno com o professor”. Em outro debate, em Porto Alegre, voltou a brilhar no semanário, politizando a situação do escritor no mercado editorial.

Mas seus pontos altos foram mesmo as resenhas, mais extensas que as da imprensa mainstream (praticamente não havia limite de espaço no Opinião) e sem os seus usuais tabus lexicais e estilísticos. A supersticiosa desconfiança de que o leitor não irá entender não fazia parte do repertório de convicções do jornal. Sua introdução a uma entrevista com Carlos Sussekind, a propósito de Armadilha Para Lamartine, é uma joia que nunca perdeu o brilho. Para ela, o romance que consagrou Sussekind “tem a qualidade de nos virar a cabeça silenciosamente, com discreta malícia e humor, com impecável mansidão, e nos lançar num poço sem fundo de associações e relações inexpressas”. Perfeito.

Pelo menos duas vezes ironizou o ruibarbosismo do acadêmico Antonio Houaiss. Merecidamente. Hoauiss escrevia (e às vezes até falava) de maneira pernóstica e ela tirou um sarro de seu estilo “beletrista, pesadão e retórico”, em tudo o oposto do que ela praticava e curtia. O primeiro alvo foi o prefácio a um “exótico livrinho que atende pelo codinome de Gente Boa”, compilação de contos e reflexões de medalhões da literatura pátria e outros nem tanto, que Ana usou como pretexto para distinguir as obras que, a seu ver, devem ser lidas de pé das que devemos ler sentados, brincando e de trás pra frente. 

A bacanérrima professorinha de 23 anos chegou de mansinho à redação. Tímida, de uma beleza estranha, gringa, cabelos encaracolados, olhar translúcido e dissimulado, as pestanas lourinhas, como se só elas tivessem pegado muito sol na praia, que sua dona não parecia frequentar. Da Ana C performática e vestida de forma extravagante que Heloisa Buarque de Hollanda conheceu (pudera: numa passeata) e celebrizou, nunca tive exibição. 

Desconhecia seus versos, ainda de restrita circulação underground; relativamente pouco conversamos, quase sempre miudezas ligadas à burocracia editorial (“Seu Cesar tem acento?”). Trocamos ideias sobre o encanto inefável dos gatos (se bem a entendi, trouxera um bichano do Nordeste) e o possível peso do protestantismo em sua formação. Criado entre católicos e judeus, arrisco dizer que ela e Glauber Rocha talvez tenham sido os dois únicos intelectuais brasileiros protestantes com os quais, em diferentes graus de proximidade, convivi. Se ela já tivesse inventado a galhofeira feminista Sylvia Riverrun (Sylvia Plath mais Joyce), outra “conversation piece” teríamos acrescentado à nossa rodinha do café na frequentadíssima cozinha que separava os domínios de minha editoria do resto do jornal. 

Não me parece daquele tempo a abreviatura Ana C, tão intensamente adotada na última Flip, que nunca me remeteu a ela e sim àqueles transatlânticos italianos da Línea C da Costa Crociere (“Grande come il mare”) que em décadas passadas levavam nossa burguesia à Europa e às repúblicas cisplatinas. O primeiro naquela rota, aliás, chamava-se Anna C. Curiosa coincidência. Em duas oportunidades, Ana Cristina estudou na Inglaterra, onde aperfeiçoou seu domínio do inglês e das artimanhas de uma tradução perfeita (de Katherine Mansfield, Emily Dickinson, Sylvia Plath, reproduzidas na coletânea). Ou seja, Ana C, como sua flutuante homônima Anna C (navio é feminino em inglês), era transatlântica.

Sem o elo do Opinião, ficamos um bom tempo sem contato algum. Até que, certa noite do início dos 80, ela me ligou para uma consulta. Como analista de textos do Departamento de Análise e Pesquisa da Rede Globo, sua principal função era checar a originalidade das sinopses de dramas e comédias submetidas à emissora, e elaborar um parecer. Tinha nas mãos o resumo de uma história cujas peripécias lhe soavam familiares (uma dupla de picaretas atrás de joias preciosas malocadas no forro de uma cadeira perdida), mas precisava de detalhes para substanciar sua apreciação. 

Guardava na memória a comédia de Mel Brooks (Banzé na Rússia) e desconfiava que o entrecho original fosse russo. Era: um romance da dupla Ilya Ilf-Yevgeni Petrov, 12 Cadeiras, publicado em 1928, best-seller elogiado até por Mayakovsky e Nabokov, que Zhdanov, o Goebbels de Stalin, baniu em 1948 e o degelo patrocinado por Kruschev trouxera de volta às livrarias soviéticas em 1956 e, no ano seguinte, fora aqui readaptado a uma chanchada, por sinal a única em que Oscarito e Zé Trindade atuaram juntos, com uma cadeira a mais no título. 

“Treze Cadeiras?!”, espantou-se Ana, caindo na gargalhada. Foi a última vez que ouvi sua voz e seu riso.

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