Filipe Araujo/AE
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Trans Moda

Transformar, transgredir - a São Paulo Fashion Week foi marcada pelo desejo de romper barreiras

Lilian Pacce, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2011 | 00h00

Trans hoje é prefixo mais associado à tal gordura do que a seu significado em si. Mas trans é algo que vai além de ou passa através de. Ou seja, combina perfeitamente com o que se espera da moda - e de uma temporada de lançamentos. Transformar, transitar, transgredir, transtornar, transbordar... transcendental.

Nesta edição de outono-inverno do SPFW trans foi personificado por Lea T, que desfilou para Alexandre Herchcovitch em traje digno de freira. A austeridade do look surpreendeu até a própria Lea, que temia que lhe dessem uma roupa mais sumária. Afinal, o arquétipo da sensualidade explícita faz parte do imaginário quando se fala em Brasil e, por decorrência, da moda feita aqui. E, se depender disso, a gringolândia saiu frustrada.

Mas a mulher - e o homem também - que prefere recursos de sedução mais sutis do que uma blusa apertada, um decote abusado ou uma perna de fora, está bem servida. Tudo com este toque trans. E andrógino. Você usa como quiser. Com pegada subversiva, burguesa, street, minimalista, surrealista...

Trans foi a mensagem contundente do desfile masculino de João Pimenta, em que seus homens querem ser freira - ou querem a freira. São monásticos, solitários, mas nada frágeis. O rigor da alfaiataria e os rebuscados bordados transmitem imagem de poder e até um certo autoritarismo. Alguém cheio de si, autossuficiente.

Se o homem de João Pimenta se basta, a mulher da Huis Clos está louca para revelar o mistério por trás de seu jeito felino, de suas luvas de plumas. Ela quer transgredir, com classe na escolha dos materiais e agilidade física na inspiração esportiva. E se diverte com o trompe l"oeil de vestidos e macacões.

A mulher de Reinaldo Lourenço também tem esta vibe transgressora recatada. Em vez do cinza e marinho da Clos, ela prefere preto e branco em uma silhueta longa e alongada. Confunde o olhar que vê de frente um smoking e de costas é pura nudez. Austero nas formas, Reinaldo não poupa pérolas nem visom para seus vestidos e estolas, sempre com rigor. E faz uma primorosa interpretação de Redfern nos modelos de tirinhas de couro.

Rigor também passa pela Osklen, pragmática, com seus cashmeres coloridos e seu moletom mescla em formas limpas que transitam entre o surrealismo e o conforto do casualwear em modelos andróginos, camuflados sob perucas de pele. Suas maxigolas lembram burcas modernas assim como o capuz-véu da mulher de Herchcovitch.

A transgressão da Maria Bonita vem da transformação de um universo operário em referência burguesa. A roupa dos candangos ganha aplicações geométricas à Athos Bulcão em técnicas sofisticadas que resultam numa imagem singela.

Já Gloria Coelho vive um eterno processo de transformação. Como muitos estilistas da temporada que reviram sua trajetória por causa da efeméride dos 15 anos do SPFW, Gloria está ainda mais envolvida em seus arquivos por causa da exposição Linha do Tempo que ela apresenta no Museu da Casa Brasileira. Com maestria, ela funde seu universo animê (agora é a turma do Pokémon), sua alfaiataria clássica (Pokémon vira nobre e ganha o título de "sir" ou pira com cristais de marajá) e seu olhar 3-D em formas que brotam da silhueta slim, criando heroínas meio androides meio governantas. Sem dúvida, teremos uma nova estação por aqui.

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