Trama tecida de mentira, autoengano e desencontro

Análise: João Cézar de Castro Rocha

JOÃO CÉZAR DE CASTRO ROCHA É PROFESSOR , DE LITERATURA COMPARADA DA UERJ, O Estado de S.Paulo

12 Setembro 2013 | 02h16

O único modo de avaliar a literatura contemporânea consiste em discutir concretamente escritores e seus textos. Pensemos em Flávio Izhaki. Seu primeiro livro, De Cabeça Baixa (2008), alcançou um equilíbrio raro entre virtuosismo narrativo e desenvolvimento da trama. Amanhã Não Tem Ninguém (2013) demonstra um amadurecimento extraordinário.

Seis vozes narrativas costuram as histórias de fracasso e de ocultamento de quatro gerações de uma família judia no Brasil. No texto, as pontas do labirinto se atam com maestria, num dos mais impactantes romances brasileiros deste ano, recordando a Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade, com seus desencontros e autoenganos.

O primeiro narrador é Patrick, no enterro de seu bisavô. E é com ele e sua avó que as narrativas convergem num final inesperado e perturbador. Nessa reunião de extremos, o fio da trama se anuncia. As vozes elaboram perdas, revelando, para o leitor atento, as mentiras que definiram suas vidas. Tudo começa com a impossibilidade de Natan, o patriarca da família, e Ana terem um filho. Depois da perda de "cinco filhos na barriga", adotam Marlene. Ana, contudo, impõe uma condição: "Terá de ser em segredo".

Marlene não se conforma com um nome "tão antijudaico". O pai explica: durante a guerra, era conveniente disfarçar as origens; ademais, "Marlene vem de Madalena, que é um nome judaico".

Falsa etimologia! Ora, os filhos de Marlene e Afonso talvez sejam góis? Pergunta que cria um enredo paralelo, articulando uma aguda reflexão sobre as consequências de "pequenas" mentiras na história pessoal e no destino de toda uma família. Marlene desejava ter uma filha. Por isso, trata o segundo filho, Marcos, como se fosse a Sara que não veio, numa involuntária réplica de sua história. Nicolas, o rebento preferido, futuro brilhante médico, comete um erro e o paciente morre. Ninguém sabe do fato, mas ele determina a mediocridade de sua carreira.

Detalhes que se tornam significativos: Ana converte-se ao catolicismo. O bisneto se chama Patrick, nome de santo católico irlandês. Não surpreende, pois, que Patrick apenas se realize nas redes virtuais e em jogos de videogame. Talvez ele tenha sido o único a intuir o drama da avó - a coisa oculta desde a fundação da família. Afinal, se mentiras estruturam uma vida, o mundo virtual bem pode ser a peça que falta para (des)armar o quebra-cabeça.

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