Trama delicada à moda antiga

Roteiro coerente de Destinos Ligados, de Rodrigo García, não esconde concepção conservadora de história densa

Crítica: Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2010 | 00h00

Sensibilidade.  Anette Bening vive amarga enfermeira de meia-idade: interpretação sólida          

 

 

 

 

Em seu novo filme, o diretor Rodrigo García (filho de Gabriel García Márquez) coloca em cena três mulheres muito diferentes unidas por um elemento em comum - a adoção. Destinos Ligados não é o primeiro filme americano sobre o tema a chegar este ano ao circuito. Antes, a atriz Helen Hunt fizera sua estreia na direção de longas falando exatamente do tema em Quando me Apaixono. Parece algo recorrente? Talvez. De qualquer forma, relações familiares estiveram sempre na moda no mundo do cinema, desde Griffith e Capra. Dizem respeito a todos, em tempos amenos ou de crise. Mas talvez hoje, com o desencanto nunca visto antes em relação à esfera coletiva, esse mundo da intimidade tenha ganhado impulso a mais na preocupação das pessoas, e é nessa condição que chega às telas com fôlego renovado. O tema da adoção, ligado ao da maternidade, é um desses aspectos da intimidade.

 

O filme de Rodrigo García começa no passado, com dois adolescentes fazendo sexo. A garota, com 14 anos, fica grávida e a criança é adotada por uma família. Saltando para o presente, encontramos as personagens do drama. Uma advogada devoradora de homens (Naomi Watts), uma amarga enfermeira de meia-idade (Annette Bening) e uma mulher (Kerry Washington), que deseja ser mãe, não consegue engravidar e resolve adotar uma criança.

 

García é hábil ao tomar as personagens em suas existências independentes para depois entrelaçá-las num destino comum. Conta ainda com um roteiro coerente e interpretações sólidas das atrizes, além da boa qualidade da parte masculina do cast, na qual se destaca Samuel L. Jackson como o patrão de Elizabeth, a personagem de Naomi Watts. Aliás, o relacionamento entre Paul (Jackson), proprietário de um escritório de advocacia, e sua ambiciosa funcionária, ocupará boa parte do filme. O romance inter-racial é um dos pontos mais interessantes da trama.

 

Menos feliz é a concepção geral do filme, que parece às vezes conservadora. Não tanto em termos das atitudes dos personagens, mas pela maneira como se dá a escolha da linguagem fotográfica, o uso da música, etc. Tudo soa um pouco à moda antiga, no mau sentido do termo.

 

Outro filme de Rodrigo García já havia sido exibido no Brasil, Coisas que Você Pode Dizer Apenas de Olhar para Ela, cinco histórias de pessoas às voltas com seus fracassos, numa trama que reunia destinos complicados. De certo modo, este Destinos Ligados retoma esse universo das histórias múltiplas, mas, desta vez, reduzindo o número de fios que vão se encontrar e colocando-os sob um tema comum como o da adoção. Dessa forma, torna-se menos dispersivo. Mas a maneira como conduz a direção parece ser regressiva em relação ao seu trabalho anterior. Parece menos disposto a encarar de frente a dureza proposta pelo tema que escolheu. Chega, por vezes, a tratá-lo de modo meio piegas. O que não quer dizer que o filme não tenha bons momentos. O conjunto é que não se sai bem da prova.

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