Trama de enredo e de vida

Tony e Susan, de Austin Wright, explora acerto de contas de casal na ficção

Manoela Sawitzki, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2011 | 00h00

Quando recebe uma carta do ex-marido pedindo-lhe que leia o original de seu primeiro romance, Susan Morrow divide-se entre a irritação, a desconfiança e a lisonja. São as primeiras palavras que Edward Sheffield lhe dirige desde o divórcio. Há 25 anos, o projeto de se tornar escritor revelou-se um catalisador poderoso de conflitos entre o casal. Agora, Susan teme o que o manuscrito tardio lhe reserva. Edward faz parte de um passado que ela procurou pacificar para que o futuro continuasse se pronunciando, conciliador. Uma instituição segura, com filhos, casa, cachorro, gato e cheques especiais. Mas que preço é preciso pagar para que a vida siga sem grandes acidentes? A resposta será habilmente construída pelo americano Austin Wright em Tony e Susan.

Se em 1993 o lançamento do quarto romance de Wright, professor de língua e literatura inglesa, não recebeu o reconhecimento merecido, em 2010 veio a reparação. Embora o autor, morto em 2003, aos 80 anos, não tenha assistido ao resgate e à ascensão do próprio trabalho, sobram motivos para festejá-los. Um ano depois de ser reeditado nos Estados Unidos e aclamado pela crítica, o livro que os editores comparam ao Revolutionary Road de Richard Yeats, enfim chega ao Brasil.

Como "existem coisas na vida que a mera leitura de um livro não é capaz de mudar", o temor de Susan pode ser desnecessário. Edward a define como sua melhor crítica, mas ela sabe que fora demasiado severa, e jamais se isentou de questionar quanto a suposta vida literária do marido a afetaria. Talvez para se retratar, aceita a missão, ciente de que "as possibilidades negativas são enormes".

O manuscrito chega e é evitado por meses. No entanto, a visita iminente de Edward à cidade impõe prazo à leitura. Enquanto Arnold, o atual marido, viaja para um congresso de medicina, Susan será tragada pela trajetória vertiginosa do protagonista de Animais Noturnos.

O professor de matemática Tony Hastings viaja de carro com a mulher e a filha para um fim de semana no Maine quando é barrado por malfeitores. O desfecho hediondo da viagem, sua estranha passividade diante do infortúnio e todo o absurdo que o sucede, numa sobrevivência inócua, revolvem as bases da leitora, a impelindo a assumir outro papel. "Ela observa a si mesma. Vê as palavras. Fala consigo mesma o tempo todo. Será que isso faz dela uma escritora?"

Com uma estrutura narrativa requintada, Austin Wright nos permite acompanhá-la através dos capítulos do thriller, em seu esforço para formular uma crítica sóbria e também decifrar possíveis mensagens ocultas no enredo "de sangue e vingança" elaborado pelo escritor que um dia condenou. Da mesma forma que haverá uma Susan antes e outra depois de Tony, é difícil sair ileso desse romance surpreendente.

MANOELA SAWITZKI É FICCIONISTA, AUTORA DE SUÍTE DAMA DA NOITE (RECORD)

TONY E SUSAN

Autor: Austin Wright

Tradução: Rubens Figueiredo

Editora: Intrínseca

(336 págs., R$ 39,90)Q

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.