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Tralhas

Descobri o recibo de um videocassete de duas cabeças e seu manual de instruções

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

11 Julho 2018 | 05h00

Orgulho-me de não ser um acumulador. Jogo fora jornais, repasso livros, não guardo roupas paradas há tempos e excluo do meu lar caixinhas ou latinhas. A rinite alérgica tornou-me ainda mais zeloso no combate a pilhas, gavetas cheias e objetos inertes. Sou historiador e detesto poeira.

Na televisão, vi alguns programas sobre o hábito patológico de gente que acumula a ponto de não conseguir entrar na própria casa. Desconheço a motivação psíquica que leva alguém a sofrer e guardar coisas inúteis e volumosas. Minimalismo, vida clean, ordem: um tripé saudável para se viver. Acumular é sofrer, concluo eu. A cena provoca um sentimento compungido e horrorizado: como alguém chega a tal ponto? Que dor a tralha esconde?

Há um detalhe que você, morador de uma casa, jamais imagina. Residir em apartamento reeduca nosso hábito de guardar. Quando minha mãe faleceu, descobrimos que ela guardava potes de sorvete suficientes para embalar a água de um Amazonas. Apartamentos, pelo contrário, convidam ao descarte. Não se trata de zelo, mas de Newton: dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Porém, como eu descobri, nas entranhas de velhos armários e recônditas gavetas escondem-se tralhas vingativas e sorrateiras. Quando as percebo elas me enganam e enunciam: um dia você irá precisar de nós.

Temos orgulhos tolos de coisa insignificantes. O cotidiano é bom para destruir as torres da vaidade. Afirmei que eu nada guardava. No fim de junho eu fiz uma adiada mudança de apartamento. É o momento de colocar coisas em dia. Como todo professor, tenho livros e papéis em grande quantidade, malgrado o zelo descrito. Estava alegre: não levaria nenhum sofá, nem fogão, nem refrigerador, nem cama ou sequer meu velho piano. Seriam apenas objetos pessoais no novo lar, algo de cozinha, livros e outros detalhes ínfimos. A mudança seria fácil e rápida.

Surpresa fatal: descobri que, sob o verniz da ordem, habitava uma quantidade impressionante de tralhas. Descobri o recibo de um videocassete de duas cabeças e seu respectivo manual de instruções, relíquia de pouca utilidade. Documentos de um velho Gol a álcool do milênio passado. Surgiram xícaras avulsas e cacos que fluíam de uma cornucópia de velharias inúteis. Por que aquele pires sem nada a lhe fazer companhia estava no armário há 17 anos? Que espécie de Apocalipse eu previ no qual seria necessário um pires avulso e sem graça? Joguei fora caçambas de tralhas, envergonhado da minha antiga vaidade e supondo que, mais um pouco, e poderiam fazer o documentário comigo, Leandro Karnal, o professor soterrado pelo lixo.

A tralha equivale à pena do infeliz Sísifo. Levar uma pedra pesada ao topo da montanha. Assim que ele chega ao cume com sua carga, a rocha escorrega e volta à planície. A tralha é a pedra incessante, nossa luta é a de Sísifos infelizes.

De onde surgem essas coisas? Teriam as tralhas o segredo orgânico que confirmaria a desacreditada geração espontânea? As tralhas se amariam no silêncio das gavetas e gerariam novos objetos a cada manhã? Faz parte do mesmo mistério do par de meias que, colocado na máquina de lavar, sai em número ímpar, tendo o outro pé transportado para dimensão distinta da nossa. Neste caso específico, a outra hipótese científica seria a ação de um saci zombeteiro, único ser com poderes e que necessitaria apenas de uma meia.

Já não me orgulho da ordem e da concisão de espaços. Como meu corpo acumula radicais livres sem meu consentimento, o mundo das embalagens, o fluxo dos jornais, a torrente de livros e a pletora de caixas chegam sem cessar ao meu novo endereço. Todos sorriem, pois sabem que serão vitoriosos. Lutarei bravamente na minha cruzada contra a tralha. Usarei um verbo que minha aluna Sylvia gosta: irei “destralhar” tudo e sempre. Acho que a ação equivale a secar gelo. Trata-se de uma luta perdida, mas como uma seleção de futebol asiática ou africana na Copa, devo mostrar dignidade nos certames. Sei que serei eliminado, mas ergo a fronte audaz e “destralho”, para ser inundado logo em seguida por nova pororoca de escombros. Poderíamos fazer barreiras sanitárias na portaria e nos corredores: antes de acessar o sacrossanto lar, a tralha teria de anunciar seu passaporte e falar das suas intenções. Com o zelo de polícia alfandegária, devolveríamos ao país de origem toda embalagem que tentasse entrar ilegalmente no nosso reino doméstico.

Sabe bem, querida leitora e estimado leitor: seremos derrotados ao final. A nova mudança será uma Revolução Francesa a desmontar as Bastilhas de lixo. O Antigo Regime volta, vingativo. Novas montanhas de papéis avulsos e tsunamis de louças desconectadas despontarão a cada pós-Revolução.

Descartarei tudo, até o dia em que eu seja descartado. Já avisei: quero ser cremado para que nenhuma tralha me acompanhe ao túmulo. Boa semana para todos nós, tralhados e destralhados. 

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