Trakl ou a Inocencia Perdida

"Não entendo esta poesia (de Trakl), mas seu tom me encanta. E' o tom do verdadeiro genio".

Anatol Rosenfeld,

04 de fevereiro de 2011 | 23h47

(Ludwig Wittgenstein, autor do Tractatus Logico-pnilosophicus).

"Quem terá sido ele?", perguntou R. M. Rilke, comovido e perplexo ante a poesia de Georg Trakl. Ela acontece, acrescenta, "num espaço impenetravel"; experimentamo-la "como alguém que estivesse excluido e se comprimisse contra vidraças". Não foi, aliás, muito diversa a impressão de T. S. Eliot ao ler as "Elegias de Duino" do proprio Rilke. Algo de incisivo dever ter ocorrido quando os proprios poetas encontram tamanha dificuldade em se entenderem.

Georg Trakl (1887 - 1914) é hoje considerado o maior lirico do expressionismo. Austriaco, da velha monarquia austro-hungara, como Hugo von Hofmannsthal e R. M. Rilke, superou ou antecipou-se a ambos nos impacto renovador da sua poesia. Tal opinião, mais ou menos simultanea à edição (em 1940 e 1949) da sua pouco extensa obra completa, somente se firmou depois da segunda guerra mundial. Desde então, a pesquisa dedicada a Trakl vem-se intensificando de maneira impressionante. Pouco mais de cem poemas levam Walter Hoellerer a afirmar que com Trakl se inicia uma nova epoca da poesia alemã: "Torna-se cada vez mais claro... que os anos da publicação dos poemas de Trakl (1913 e 1914) devem ser considerados de alcance semelhante ao ano em que apareceram os "Cantos de Sesenheim" (1776) de Goethe".

Esses poemas do jovem Goethe, em plena fase pré - romantica do 'Sturm und Drang", revolucionaram a poesia alemã, durante largo tempo quase inteiramente de teor descritivo e edificante. Em seu lugar Goethe impôs a lirica da vivencia autobiografia ou da confissão direta de extravasamento das emoções individuais, aquilo que, de modo geral, se julga como tipico do romantismo. Esse subjetivismo biografico, contudo, foi apenas um entre muitos aspectos do romantismo, aspecto que cedo perdeu a sua importancia. Já E. A. Poe e Baudelaire começam a dirigir-se contra a poesia do "coração" e acentuam a "impessoalidade voluntaria" dos seus versos. No entanto, e esse aspecto passageiro da poesia romantica que até hoje é considerado por muitos como constituindo o carater fundamental de toda a poesia lirica em todos os tempos. E isso apesar de se considerar suspeito, há muito, o uso inequivoco e direto da palavra "coração" com os clichês sentimentais que costumam acompanhá-la. Perdeu-se, neste terreno, a inocencia. Rimar em alemão "Herz" (coração" e "Schmerz" (dor) é hoje sintoma infalivel de "Kitsh" (pseudo-arte).

O "Kitsch" situa-se, por vezes, menos na obra do que no "coração" do apreciador. Ao ouvir musica, disse Hanslick, o leigo "sente" muito mais do que o conhecedor. Mesmo uma grande obra-de-arte pode ser transformada em "Kitsch"pela maneira pegajosa como os "inocentes" costumam projetar os seus sentimentozinhos particulares, fazendo-os aderir á obra. E' caracteristico para o "Kitsch" a viscosa aura sentimental a que se opõe, na verdadeira obra-de-arte, apesar ou em virtude do seu impacto emocional autentico, certo rigor acre, certa aspereza pudica e mesmo certa frieza.

O desencontro entre a arte moderna e o grande publico liga-se em parte á quebra de uma tradição já cansada que levou até a exaustão os aspectos mencionados do romantismo (hoje explorados pelas industrias culturais). Na poesia de lingua alemã, o austriaco Trakl marca em grau ainda maior do que o prussiano Georg Heym o momento decisivo em que a poesia se recusa a ser trampolim para divagações sentimentais de ordem pessoal, precisamente pelo fato de o poeta deixar de apresentar, em diario versificado de forma direta, a sua autobiografia, os queixumes e alegrias da sua vida "civil", pontos de partida para as identificações e empatias faceis e superficiais.

Trakl, ao invés, constitui-se em criador de um mundo verbal "abstrato" em que se encontra inserida obscuramente, nas suas linhas essenciais, a situação do homem ocidental numa epoca tida como "terminal". A melancolia desses versos não permite ser referida, a não ser de forma muito indireta, ás magoas pessoais do poeta; ela é, por assim dizer, categoria fundamental de um sistema antropologico que esboça a imagem "partida" do homem em decomposição das grandes cidades "putrefatas" do Ocidente; imagem sombria que o poeta lança contra o ouro e azul de uma perdida ordem espiritual, ainda intacta e inocente, ainda plena de "coração".

Essa "interpretação", todavia, é uma simplificação grosseira e unilinear de um mundo complexo e de dificil acesso. Nenhuma interpretação das inumeras já apresentadas é satisfatoria e menos do que todas a de Heidegger que, estilhaçando a vidraça mencionada por Rilke, mutila o "misterio azul" dessa poesia reclusa.

O que dela se pode dizer com certeza é que a partir da palavra se constitui um mundo poetico autonomo, em alto grau desligado da realidade empirica, quer psiquica do poeta, quer material do mundo exterior: ambos, como é natural, presentes, mas depois de terem passado por uma transfiguração radical. E' que a palavra já não nomeia as coisas como tais; o nexo entre aquela e estas está quase desfeito.

Através desse alheamento da realidade, o vocabulo se renova de modo estupendo, destroi os clichês e adquire, para falar com Sartre, valor de objeto artistico autonomo. Configurando imagens "fauvistas" de suma beleza, torna-se portador de um novo universo, conquanto de um universo "partido"(palavra-chave de Trakl ), tanto devido á sintaxe das orações como á estrutura dos poemas em que muitas vezes as frases se seguem sem nenhuma concatenação aparente, como que separadas por fendas intransponíveis. Através dessas brechas, o poeta - apaixonado leitor de Kierkegaard, Nietzsche e Dostoievski - parece vislumbrar uma transcendencia longinqua, porém vazia, vazia como a imanencia intima desses "poemas de ninguém" . Trakl é um protestante em meio do clima tradicionalmente catolico de Salzburgo. E' possivel que essa situação tenha exacerbado sua concepção, obscuramente expressa no texto de que Deus, se não "morreu", de qualquer modo se tornou "absconditus", deixando perdidos o mundo e a "figura decomposta do homem". Quase todos os seus poemas parecem ser expressão cifrada de um profundo senso de culpa, de um cair e decair irremediável, às vezes traduzido por um mero esmorecer abstrato de ritmos e côres, outras vezes, porém, ligados a visões apocalipticas de gigantescas metropoles corruptas e de um "Abendland" em pleno apodrecimento. "Abendland", o termo alemão para o Ocidente, significa literalmente "Pais do Anoitecer"; outono e "Abend" - o termo para as horas da lenta transição européia entre a tarde e a noite - são outras palavras-chave da poesia de Trakl.

Mas ainda agora a interpretação deforma esta poesia em que a queda por vezes parece transformar-se imperceptivelmente em elevação e redenção. Melhor será manter a face apertada contra as vidraças, reconhecendo com Rilke que a experiencia de Trakl se move num espaço tão impenetravel como o refletido por um espelho. Melhor será deixar-se encantar pela musica dos versos que ressoa como " no juncal as escuras flautas do outono", pelos ritmos hoelderlinianos e pelas sinestesias, já mais audazes do que as dos romanticos e mesmo de Rimbaud, cujos poemas cedo lhe vieram ás mãos, talvez por intermedio de uma governante alsaciana.

E' precisamente a repetição monotona dessas sinestesias - alguns a derivam da sua narcomania - que desrealiza o seu mundo e afasta as palavras da realidade empirica: "animais azuis que ressoam debaixo das arvores; em sagrado azul repicam os passos luminosos; "o sino róseo da Pascoa"; "sempre ecoavam de torres crepusculares os sinos azuis da tarde"; "olhos repletos de repicar noturno"; "teu sorriso delgado ecoa..."; "os passos enverdecem, de leve, no bosque"; " a sombra do animal geme na folhagem"; " a doçura purpurina das estrelas"; "a alma canta a morte, a verde decomposição da carne"; "os caminhos todos desembocam em negra putrefação".

Vê-se que Trakl impõe á palavra funções que lhe tiram os seus valores simbolicos convencionais. Transforma-a em cifra ambigua, cujos significados somente podem ser elucidados - talvez - mediante um sistema de referencias internas, localizado no proprio organismo poetico. Mesmo assim, o significado das côres não é rigidamente prefixado e toma direções variadas, segundo o contexto, embora se possa julgar como quase certo de que o azul se liga em geral ao sagrado e inocente, o ouro á verdade e ao integro, o vermelho e roxo á carne e ao pecado etc. São certamente interessantes as pesquisas feitas em conexão com as manifestações simultaneas do pintor Franz Marc ( o dos "cavalos azuis") e da teoria de côres de Kandinsky. Muitas vezes, porém, um substantivo serve, no campo energetico do texto, como mera força polarizadora de tensões, enquanto o adjetivo anexo, longe de ser explicativo ou caracterizador, lhe aniquila o sentido tradicional para, em compensação, pôr-lhe em movimento vibratorio as zonas misteriosas e encobertas. Assim, o "animal azul" não funciona como simbolo transparente que leve nossa consciencia além do poema para o mundo real e sim como hieróglifo opaco ou de ambigua irisdescencia que nos prende dentro do seu mundo poetico. O poema exige a nossa completa solidariedade como organismo estetico e não nos permite desertar para o mundo empirico. O poema constitui-se em mundo autônomo.

Foi ainda Rilke que, já em 1917, vislumbrou nos versos de Trakl o que mais tarde se convencionou chamar de "poesia ontologica", atribuindo-lhe importancia decisiva por ter libertado a poesia das amarras biograficas: "Na historia do poema os livros de Trakl são contribuições importantes para a libertação da figura poetica. Com eles parece ter sido sondada uma nova dimensão do espaço espiritual, refutando-se o preconceito que julga toda a poesia em termos de sentimentos e conteudo, como se na direção do lamento nada houvesse senão o lamento: ainda aí há, de novo, mundo"( hoje se diria, em vez de mundo, "Ser".

Farmaceutico, Trakl tornou-se cedo viciado em narcoticos. Em 1914, agregado ao corpo medico do exercito austriaco, não suportou presenciar os sofrimentos dos feridos. Após uma tentativa de suicidio, foi recolhido a uma cela, na cidade de Cracovia, ao que se diz porque teria sofrido de "dementia praecox".

A NOITE

O azulado em meus olhos

[apagou-se nesta noite,

O ouro vermelho de meu

[ coração. Ardia tão quieta a luz!

Teu manto azul cingiu

[quem submergia;

Tua Boca vermelha selou

[do amigo as trevas que

[vinham (1 ).

No mesmo ano, em consequencia de uma dose excessiva de narcoticos, faleceu aquele que eliminara o "coração" da poesia alemã. Talvez uma perda irreparavel, como é irreparavel a perda da inocencia. Mas essa há muito se fôra, o "rouge" e roxo lhe substituira o rosado das faces. Em lugar de suas imitações instala-se agora o primitivismo refinado, a "singela duplicidade", o calculo irracional e o arcaico ultramoderno: tensões sem duvida de infinita sedução. No momento em que se extingue o "ouro vermelho" do "meu" coração, desaparecem todas as macaqueações do velho e simples coração que, pelo menos na poesia, há muito deixou de bater.

(1) A tradução é de Roberto Schwarz.

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