Trair e teclar, é só começar

É fácil passar de traída a traíra. Você, esposa ou namorada fidelíssima, pode ser a amante perversa de amanhã. É o que diz uma especialista no tema traição, Isabel Tarcha, autora do livro O Oitavo Pecado Capital (editora Celebris, 167 págs., R$ 22). Segundo ela, basta estar vivo para trair ou ser traído - "faz parte da natureza humana". E a constatação atinge também o sexo oposto: entre os internautas que já confessaram seu crime no site traida.net (que Isabel mantém no ar desde agosto de 1999), 53% são homens e 47% mulheres.Se o mal não faz distinção entre os sexos, também não o faz entre bonitos e feios, gordos e magros, sarados e flácidos. Por isso, a representação gráfica de Isabel na internet - uma mulher de 36 anos que muitos dizem parecida com a socialite Vera Loyola - é uma ninfeta sexy, aparentando 18 aninhos, bem provida de curvas e desprovida de roupas."Antes o símbolo do site era uma mulher com chifres", lembra ela, que na internet adota o codinome "traída". "Parecia um bode. Pedi para trocar porque queria que as pessoas vissem o desenho e pensassem: ´se até com ela aconteceu, pode acontecer com todo mundo´."O placar que contrapõe os chifres colocados nelas e neles quase empata, mas elas, segundo Isabel, são mais competentes em não deixar pistas. Têm o cuidado de levar para o motel um sabonete da mesma marca da que usam em casa e deixam uma roupa de reserva no porta-malas do carro. "Já os homens são capazes de tomar banho no motel, ´chegar de uma reunião´ com o cabelo molhado e dizer que estavam trabalhando", conta Isabel, divertida.Para evitar que situações assim aconteçam com os fregueses e freguesas de seu site, ela lista nele, e no livro, dicas de como trair sem deixar vestígios. E também de como detectar sinais de que se é vítima do problema."Não tomo partido, não incentivo ninguém a trair, não digo o que é certo e o que é errado, trato tudo com seriedade, sim, mas com muito bom humor", diz a autora - ela própria sobrevivente de uma traição. Na página de agradecimentos de seu livro, Isabel cita o ex-companheiro: "Agradeço a ele por ter me traído e com isso me transformado na mulher que sou".A mulher que Isabel é: uma profissional bem sucedida que fez da traição o que garante seu sustento. Antes, era contadora. Abandonou a atividade para assumir a de traída - na internet, em livro e na tevê. Na semana passada, Isabel estreou um programa próprio no canal 17 da operadora TVA e na ALLTV, na Rede, nos quais poderá ser vista, ao vivo, todas as sextas entre 16 e 17h. "Todas essas conquistas são a minha vingança. Meu ex-marido dizia que internet era coisa de homem e foi justamente através dela que tudo isso aconteceu."Foi na Rede que Isabel descobriu que era traída pelo homem com quem vivia havia dois anos e a quem conhecia havia dez. Ao abrir a lista de sites favoritos dele, encontrou o endereço de paquera "almas gêmeas". Entrou nele e, por brincadeira, listou todas as características do então companheiro. Surpreendeu-se ao deparar-se com a foto dele, todo sorridente, acompanhada do texto "Meu coraçãozinho é solitário; quem sabe você não é a mulher da minha vida?".Ficou péssima. Chorou. Teve acessos de fúria. Para se vingar, se inscreveu no mesmo site dizendo: "Sou traída pelo meu marido e quero fazer o mesmo; por favor me escreva". Em duas semanas, Isabel recebeu 320 mensagens. O marido, apenas duas."Gente de todo tipo me escreveu", conta ela. "Alguns me aconselhando a não agir daquela maneira, outros me convidando para ir a um motel o mais rápido possível. Tinha uns caras que pareciam sussurrar na tela, dizendo que nunca tinham feito algo daquele tipo, e que a esposa não poderia saber, e que já estavam arrependidos antes mesmo de sair comigo..."Depois de um ano tentando salvar o casamento - "virou um jogo; eu xeretando nos bolsos, no celular dele, cheirando as roupas, e ele achando que eu ia traí-lo por vingança" - a relação chegou ao fim.Isabel, que já tinha começado a pesquisar por conta própria como fazer sites, resolveu recuperar o material que tinha recebido de internautas e criar o seu. Lançou o traida.net com a colaboração do proprietário de uma incubadora de sites - que viria a ser seu namorado, com quem está até hoje.Se, depois de passar a lidar com as experiências de gente que trai, Isabel ficou descrente do amor? "Não. É preciso aprender com a traição, dar as responsabilidades a quem as tem - ou seja, ver qual é a sua -, e ter em mente que é preciso cuidar da relação sempre para que coisas assim não aconteçam. Todo mundo está sujeito à traição." Que atire o primeiro mouse quem for 100% inocente.

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