"Trainspotting" expõe mundo das drogas

Estréia amanhã em São Paulo o espetáculo Trainspotting, uma das boas montagens da temporada teatral carioca do ano passado, indicada para o Prêmio Shell em duas categorias e ainda destaque no Fringe do Festival de Teatro de Curitiba, deste ano. A temporada paulistana, na Sala Assobradado do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), vai até 30 de setembro.Quem viu o filme homônimo, dirigido por Danny Boyle, pode até duvidar da possibilidade de transposição teatral dessa história que envolve um grupo de jovens viciados em heroína. Mas a peça de Harry Gibson, também baseada no romance homônimo de Irvine Welsh, já foi encenada em Londres e Nova York. No Brasil, o texto foi traduzido por Arnaldo Marques e Laura Guimarães Rosa.Trainspotting conquistou o público jovem com a direção ágil de Luiz Furlanetto - formado no Centro de Pesquisa Teatral (CPT) dirigido por Antunes Filho, onde integrou o elenco de espetáculos como Paraíso Zona Norte e Nova Velha História. "O original tinha apenas quatro personagens e muitos solilóquios. Era ótimo. Mas preferimos aumentar o número de personagens e transformar algumas narrações em diálogos. E isso acabou dando mais dinamismo ao espetáculo."No elenco, dez bons atores, todos formados na mesma escola no Rio, a Casa das Artes de Laranjeiras. Juntos, também sob direção de Furlanetto, eles encenaram seu primeiro espetáculo profissional, Fausto Gastronômico, em 1999. Resolveram repetir a dose e conseguiram elogios da crítica e casa cheia com Trainspotting. Boa parte da história é narrada ou relembrada em cenas de flash-back por Mark (Pedro Osório), cujo "filminho" da vida passa por sua cabeça no momento em que está à beira da morte por overdose de heroína.Latas de lixo compõem o cenário do espetáculo, metáfora do estilo de vida daquele grupo de amigos, que vive em total precariedade. Não fazem planos, não têm afeto familiar nem dinheiro. Apesar dos atores terem mantido a locação original, Escócia, a linguagem, a trilha sonora - Jimi Hendrix, The Doors - aproxima os personagens da platéia brasileira. "Poderia ser o Brasil, poderia ser crack ou cocaína. Mas preferi não fazer essa transposição."Há momentos de grande violência e outros de muito humor, ainda que negro. No primeiro caso, Alison (Liliane Rovaris) esquece de alimentar a filha recém-nascida, que morre por causa dessa negligência. "É uma cena forte que mostra até que ponto a droga pode levar, chegando a provocar o rompimento de um vínculo tão forte." O humor surge, por exemplo, quando Alison - trabalhando como garçonete - vinga-se da empáfia de um cliente bêbado e machista acrescentando um "tempero especial" a sua sopa de tomate.Furlanetto e os atores - que entraram em contato com viciados - têm consciência da gravidade do tema. "Não fazemos nenhuma espécie de apologia às drogas, mas também não levantamos bandeiras antidrogas. Apenas procuramos retratar uma situação bem real. Algo do tipo: se quiser ir, vá, mas é isso aí que vai acontecer com você", argumenta Furlanetto. Mas ao contrário do filme, que salva o personagem central, a peça termina bem pessimista, ou realista. Trainspotting - De quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 20 horas. R$ 15,00. TBC - Sala Assobradado (Rua Major Diogo, 315); tel. 3115-4622. Até 30/9

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