Traído pelo coração

Depois de apresentar melhora, cantor romântico Wando morre de parada cardiorrespiratória em Belo Horizonte

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2012 | 03h13

Os últimos dias eram de boas notícias. O coração de Wando, depois de submetido a uma angioplastia no dia 27, quando o cantor sofreu um enfarte, se recuperava bem. A respiração quase não precisava mais da ajuda de aparelhos, sua alimentação por via oral era retomada com um pouco de iogurte e os médicos do Hospital Biocor, em Nova Lima, Belo Horizonte, já tinham esperanças em tirá-lo do Centro de Tratamento Intensivo (CTI) e levá-lo para um quarto comum.

Mas, na madrugada de ontem, o coração que Wando tanto cantou em suas músicas começou a traí-lo. Às 5h40, os médicos diagnosticaram uma piora cardíaca. Uma hora depois, não havia mais batimentos. "Apesar de todos os esforços para reanimá-lo, como o uso do desfibrilador, Wando faleceu às 8 horas", informou o médico Heberth Miotto. Aos 66 anos, ele estava com cerca de 30 quilos acima do peso e levava uma vida sedentária. "Ele nunca cuidou do próprio coração", afirmou Miotto.

A família do cantor divulgou nota agradecendo o carinho e a atenção de todos os envolvidos durante o período de internação do cantor no Biocor. "Agradecemos o carinho e a atenção de todos, especialmente ao Sr. Wanderley Alves dos Reis - Wando -, à sua esposa e aos filhos, ao Corpo Clínico, aos profissionais de saúde e demais colaboradores que, com dedicação e respeito, atuaram de forma intensiva e completa, aplicando todos os recursos e técnicas disponíveis, nada faltando ao paciente durante todo o tratamento." Segundo informações preliminares da assessoria do Biocor, o enterro do cantor será realizado hoje em Belo Horizonte, por volta das 11 h, no Cemitério Bosque da Esperança. O velório teve início às 17 h de ontem, no mesmo local.

Volta por cima. Aquele garoto do Opalão vermelho só podia estar fazendo coisa errada aos olhos dos donos do jornalzinho da cidade de Congonhas do Campo. Wanderley, cravava o periódico, fazia parte de uma quadrilha de 'puxadores de carro', ladrões da pesada. Mas não. Wando, como sua avó preferia chamá-lo desde pequeno, em vez do Wanderley, só estava ali para devolver um violão que havia pegado emprestado de um amigo e dizer ao povo que o vira crescer em Congonhas que ele havia vencido. O Opala era seu troféu, comprado com o primeiro dinheiro que a música lhe dera. Wando já queria aparecer.

Antes de ser cantor, o menino romântico e tímido soube treinar os olhos e se tornar um bom observador. Mineiro de Cajuri, criado em Juiz de Fora, amadurecido em Volta Redonda (RJ) e malandreado em São Paulo, trabalhou entregando leite e jornal, vendendo legume em feira e dirigindo caminhões. Saber o que o povo queria, logo, ficaria fácil.

Moleque, foi fazer aulas de violão erudito para ganhar as meninas, mas algo não se encaixava ali. Ele não tinha nascido para a música clássica. Sentiu que muitas de suas 'presas' cochilavam lá pelo terceiro compasso de Pour Elise. "As mulheres ficavam um pouco entediadas", disse em depoimento em seu site. E Wando era assim, se elas quisessem ouvir gaita de fole, ele buscaria uma na Escócia. Sua nova estratégia: entrar para um grupo de baile.

O Escaravelhos - sim, se os Beatles tinham nome que remetia a besouros, por que não seu grupo? - lhe deu os primeiros cachês. Inspirado, estreou na arte da conquista verbal com sua primeira composição O Importante É Ser Fevereiro, gravada por Jair Rodrigues. Mas ainda vivendo em uma espelunca chamada Hotel Rócio, na Rua dos Timbiras, centro de São Paulo, suas manhãs não tinham desjejum. "O Rócio não tinha elevador nem dava café da manhã."

Mas era ali que estava seu primeiro 'anjo da guarda', um dentista aposentado que lhe deu o melhor lanche de pernil que comeu na vida em uma manhã de fome aguda e o apresentou o crítico de música Antonio de Almeida. Toninho o incentivou a ir mostrar suas músicas a Jair Rodrigues.

E Jair o gravou. Foi dela que saiu o Opala vermelho. Já com contrato embaixo do braço e cabelo black power, Wando se lançou nos discos, de início, fazendo algo inspirado no que faziam Caetano e Gil. Ao contrário de outros artistas populares que tentam se elitizar depois e em geral renegam o passado, Wando fazia um caminho contrário. Seus discos primeiros eram percebidos como 'elitistas'. Só depois que suas estratégias o colocariam no hall dos populares. "As rádios FM tocavam suas músicas, mas não tocavam as minhas nem as do Odair José, por exemplo. Ele fazia história", diz Amado Batista.

As mulheres, de novo, apareceram para mudar sua carreira. Ao cantar nas noites de São Paulo, Wando percebia que o grande momento se dava nas músicas românticas. Elas o queriam sim, mas falando de amor. E não do amor acadêmico de Vinícius de Morais, mas daquele que as mandava jogá-lo na cama e chamá-lo de seu. "Foi onde tudo começou", dizia.

Vendagens. Moça, de 1975, vendeu 1,2 milhão de discos. O fenômeno estava criado. Até a última contagem, suas vendas contabilizam mais de 10 milhões de álbuns. A estratégia do caçador de corações, enfim, dera certo. Os shows de Wando viraram celebrações ao amor. Predador, falavam uns; brega, diziam outros. O cara da maçã, o cara da calcinha. Os rótulos não o contrariavam. Apenas uma temporada de um de seus shows, na casa Asa Branca, no Rio de Janeiro, levou um ano e quatro meses, de quarta a domingo, com 150 pessoas no camarim todas as noites. Ao virar uma calcinha ao contrário, percebeu que ela se transformava em uma tenda.

E com o nome Tenda dos Prazeres batizou um de seus discos mais vendidos. Ganhar calcinhas de suas fãs, assim como pedir para que mordessem um quindim ou uma maçã durante o show, se tornou uma de suas marcas. Wando fazia o que elas queriam para afagar suas amarguras. Só esqueceu de cuidar do próprio coração.

COLABOROU MARCELO PORTELA DE BELO HORIZONTE

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