Traição, cobiça e poder em "Terceiras Intenções"

Traição, cobiça, poder. Os ingredientes extraídos dos homens pequenos, não virtuosos, formam o painel cômico de Terceiras Intenções, adaptado pelo ator e comediógrafo Juca de Oliveira, do vaudeville francês Monsieur Jo, de Claude Magnier, um clássico dos anos 50. Depois de um mês de ensaios e três meses de apresentações pelo Brasil, a comédia estréia em São Paulo, no Teatro Bibi Ferreira, com direção da mesma. O trio Taumaturgo Ferreira (que faz seu retorno aos palcos, após sete anos), Patrícia França e Paulo César Grande, deita-se na mesma cama para contar a história do empresário Fernando (Grande) em conflito com sua mulher Ana Paula (Patrícia) ao ver o operário desempregado Otávio (Ferreira) deitado ao lado dela.No Brasil, a peça foi traduzida e apresentada nos mesmos anos 50, pela companhia da atriz Nydia Licia, com o ator Sérgio Cardoso. Em 1982, estreou como Uma Cama para Três, retraduzida e adaptada por Oliveira, com Eva Wilma, Carlos Zara e Fúlvio Stefanini. Foi um grande sucesso de público. "Em vez do vendedor de caixões da peça original, optei pela figura do operário", disse Juca de Oliveira. A versão de 82 para a deste ano ganhou pequenas alterações. "Utilizo basicamente a primeira cena da peça de Magnier, que é o encontro dos três personagens na cama. O autor consentiu na adaptação e recebe direitinho pelos direitos autorais", gracejou o comediógrafo.A primeira parte da peça propicia realmente um encontro inusitado. O empresário e sua mulher resolvem passar uma temporada na casa de campo, para tentar a reconciliação do casamento. Certa noite, a mulher, após tomar um sonífero, resolve colher flores para a chegada do marido. Enquanto as colhe no quintal, Otávio que viajava em estrada próxima, tem problemas com o carro e se vê obrigado a pedir ajuda na casa mais próxima. Bate, entra, não vê ninguém e, exausto, deita-se na cama vazia. Ana Paula volta ao quarto e deita-se sem perceber a presença do desconhecido. Ao chegar, Fernando "flagra" ambos deitados. Esse é o mote para os inúmeros qüiproquós."O que a peça tem de incrível é que o público já está às gargalhadas nos primeiros três minutos", atesta Bibi Ferreira. Sempre efervescente, nos últimos tempos dirigiu de Juca de Oliveira Qualquer Gato Vira-Lata tem uma Vida Sexual mais Sadia Que a Nossa; Criador e Criatura; Conduzindo Miss Daisy; e Tango, Bolero e Cha-Cha-Cha, esta com o ator Paulo César Grande.Depois de recuperar-se de uma dengue e acompanhar a mulher, que esteve internada em um hospital, Grande acredita que mergulhou de cabeça na peça. "Eu diria que esta peça é como a vingança do operário sobre a classe dominante, um pouco como em Caixa 2. A forma é de uma comédia do cotidiano, mas sem ser chanchada. Os poucos palavrões que há estão muito bem colocados", diz o ator de Desejos de Mulher. A idéia de vingança está na raiz do encontro ocasional. Quando Otávio, o operário desempregado, reconhece em Fernando seu ex-patrão (que não o reconhece), tira certo proveito da desgraça causada pelo dono de empresa para flertar com a bela e oca Ana Paula."Minha personagem é uma perua, preocupadíssima com a beleza, sem nenhum compromisso com a verdade e a dignidade", define a atriz, pouco conhecida pelos trabalhos em teatro (A Ver Estrelas, Peer Gynt, Aladim e Péricles, Príncipe de Tiro), mas marcadamente divulgada pelas novelas de televisão."Uma das coisas que me encantaram muito neste trabalho foi ter a direção de Bibi, que, por ser também atriz, sabe como dirigir atores e não somente o espetáculo", sublinha. Patrícia trabalhou com Taumaturgo Ferreira em A Padroeira. Ele volta aos palcos depois de sete anos. "Fiz 25 novelas e apenas sete peças", contabiliza o ator de O Cravo e a Rosa e Andando nas Nuvens, da TV Globo.

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