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Trágicos e cômicos

A vida parece correr tragicômica, fundindo dor e riso a cada passo

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2018 | 03h00

Tratar da humanidade e de suas personagens em polos sempre fez sucesso. Lembro da dupla “apocalípticos e integrados”, de Umberto Eco. Ocorre-me o binômio do “ladrilhador e do semeador”, de Sergio Buarque de Holanda, e tantas outras. Adoramos pares, especialmente opostos. 

Quero falar de trágicos e cômicos. A tragédia é uma arte elevada, que deveria, segundo Aristóteles, produzir catarse no público. A musa trágica é Melpômene. Apesar dos temas profundos e cheios de dor, seu nome evoca melodias. Minha avó Maria nunca iria ao cinema para ver filmes tristes, pois de “amarga bastava a vida”. Os gregos clássicos discordariam e tinham nas obras de Ésquilo ou Sófocles um ponto alto da sua expressão artística. Tragédia era um programão em Atenas. 

Há pessoas que parecem ter nascido sob a sombra de Melpômene. São almas trágicas, enumerando desgraças e o fim inevitável de tudo. Se fossem uma personagem mais recente, seriam como a hiena Hardy de um desenho animado de Hanna-Barbera. Incapaz de sorrir, era dela o mote permanente: “Oh vida, oh céus, oh azar”. A eterna pessimista afirmava que não iria dar certo e, quase sempre, estava correta. O trágico e o pessimista têm parcela importante da razão. 

Os filhos de Melpômene têm, como a sua musa, coroa de cipreste, a árvore que evoca os mortos. Lembram o pior de tudo. Apostam no caos. Ironizam otimistas e, com frequência, estão certos. A dor parece conferir importância a algumas pessoas. Seus sofrimentos alardeados, seus temores recorrentes, sua família problemática e suas finanças tumultuadas constituem um sentido elevado como uma nova Pietá mostrando o filho morto ao colo. 

Estimado leitor e querida leitora: vocês devem ter uma Melpômene no círculo de relações. É preciso entender que a felicidade dela é a infelicidade. Explico-me: retire-se o discurso trágico e nada sobra. A dor permanente é um cobertor generoso a ocultar muitas outras coisas. Tudo ruiria nos trágicos se não fossem acompanhados pelo gemido pungente da sua própria lamentação. 

Melpômenes têm uma vantagem social: adoram enterros e situações de UTI. Aparecem imediatamente, ficam além do necessário e, sob o manto da solidariedade, diluem-se no cenário sombrio com tranquilidade de ator que encontrou o papel mais adequado. Choram junto, relembram suas próprias dores, posam de moralistas do século 17 a evocar a vacuidade de tudo.

Nunca tente consolar uma Melpômene, ela fica mortalmente ofendida com o seu descaso. Pelo contrário, o ideal é reforçar que coisas ainda piores podem acontecer e que tal contratempo é só a ponta translúcida de um gigantesco iceberg. A verdadeira Melpômene agradecerá e, por um instante, seu rosto úmido de lágrimas encontrará a vaidade de constatar que nunca alguém sofreu como ela. Afinal, se ela é a pessoa para quem tudo dá errado na vida, o universo inteiro gira em torno de seu umbigo, sabotando cada ato. Se o alegre é o sol que ilumina, o trágico é o buraco negro que absorve toda a luz.

Há um gênero oposto: os filhos de Tália, a musa da comédia. São cronicamente otimistas, inquebrantáveis no propósito da felicidade. Lembrei-me de Lippy, leão risonho e sempre otimista, companheiro oposto e inseparável de Hardy. 

Vamos ao outro lado. Os otimistas incuráveis ganharam um up com as redes sociais. Podem espalhar mensagens tomadas de risos, flores, poemas, orações, mãos em prece e um fluxo incessante de promessas de porvir glorioso. Fazem mal aos diabéticos, pois sempre destilam coisas doces.

Tália, a alegre musa deles, gera filhos piadistas, autores jocosos, gente que em meio aos maiores tormentos consegue encontrar graça e criatividade rindo da situação. Melpômene escreve editoriais; Tália cria memes. Tália é leve, Melpômene pesada. Ter só Tálias em uma noitada é uma boa pedida, porém é complicado conviver com uma pessoa que ri o tempo todo. É divertido encontrar a graça, é cansativo rir sempre de tudo. Melpômene é quase sempre sufocante com lufadas de um incenso fúnebre. Tália começa bem, mas, como um bom pote repleto de papo de anjo, vai enjoando até os mais carentes da suavidade do açúcar. 

Os gregos imaginavam traduzir uma gramática do universo ao elaborarem seus mitos. Servem como referência e figura de linguagem. Falavam da força de Héracles/Hércules, a sabedoria de Palas-Atena/Minerva ou a sedução de Afrodite/Vênus. Em todos os grupos humanos podemos supor haver esses “tipos ideais” para entender o equilíbrio do mundo e sua infinita variedade. Toda família e todo grupo de trabalho apresentam uma ou mais Melpômenes. Impossível não encontrar ao menos uma Tália divertida na noite. Talvez o maior sentido seja a fusão de ambas, pois a vida parece correr tragicômica, fundindo desastre e realização em cada esquina, dor e riso a cada passo. A filosofia estoica ensina a um distanciamento do engano de ambas, pois alegria e dor interrompem nosso equilíbrio. A autoajuda contemporânea ensina que você pode abraçar Tália para sempre, basta querer. Poetas e budistas pregam que a dor é inevitável, porém o sofrimento é opcional. Velhas tias em suas poltronas asseveram que a vida é assim mesmo, com seus altos e baixos. 

Se o domingo estiver pesado, chame Tália para almoçar. Porém, marque hora para ela ir embora. Açúcar engorda e enjoa. Melpômene não precisa ser convidada, é brinde do pacote vida. Bom domingo para todos nós. 

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