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Tragicomédia da guerra

Com a história de heróis anônimos, Monicelli venceu o Leão de Ouro

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

30 Junho 2011 | 00h00

Com A Grande Guerra, Mario Monicelli (1915-2010) atinge um dos pontos máximos de um cinema que tem na mistura de humor e drama seu segredo maior. Fazendo rir e chorar e, por fim, induzindo o público ao pensamento crítico, o filme, vencedor do Leão de Ouro em Veneza em 1959, se constrói com uma fluência que traz o espectador preso não apenas à sua trama principal, mas às subtramas que se vão abrindo ao longo do caminho. Subtramas? Sim. A arte da digressão tampouco era estranha ao talento de Monicelli. Ele sabia que histórias paralelas não apenas enriquecem mas dão sentido à trama central.

A primeira sequência já apresenta os dois personagens principais, o romano Oreste (Alberto Sordi) e o milanês Giovanni (Vittorio Gassman), expondo suas características. A Itália está convocando seus soldados para a carnificina na 1.ª Guerra Mundial e Giovanni, como bom malandro, tenta tirar o corpo fora. Na fila dos convocados, Giovanni julga que Oreste pode ter alguma influência sobre o oficial que está recrutando os jovens e paga por seus bons serviços. É enganado. Não é o único. De engano em engano será feita a trajetória não apenas dos dois, mas de todo o pelotão combatente. A guerra, segundo Monicelli, se constrói através de equívocos.

Sim, porque Oreste e Giovanni, por mais que tentem se livrar do perigo, cada vez mais se enredam na guerra e sempre de maneira mais intrincada e profunda. Fazem lembrar a frase de Trotski: você pode não estar interessado na guerra, mas a guerra está interessada em você. E é querendo evitar o perigo maior que a dupla de malandros terá de se defrontar com o grande desafio de suas vidas. Como se Monicelli dissesse que o heroísmo não se busca; ele é apenas uma possibilidade aberta diante de uma situação terminal. Por outras palavras, ninguém nasce covarde ou herói. Tudo depende das circunstâncias. A tal ponto que, às vezes, a covardia é o primeiro passo para a construção de um herói.

A dramaticidade dos combates (filmados de maneira bastante realista) tem como contraponto os aspectos cômicos, por exemplo, no envolvimento de Giovanni com a prostituta Costantina, vivida por Silvana Mangano. Monicelli integra com engenho e arte os protagonistas e os personagens ditos secundários. Da prostituta ao oficial de sobrenome propício a piadinhas (o tenente Gallina, interpretado por Romolo Valli), todos respiram humanidade, que é o termo maior para Monicelli, diretor afinal bastante influenciado pelo neorrealismo. Seus personagens, seus heróis mais marcantes, são pessoas do povo, gente que conhece a fraqueza humana e com ela é tolerante porque, no fim, somos todos frágeis e mortais, mesmo quando o dever nos manda ser inflexíveis.

Monicelli nos lembra também que os heróis do povo são desconhecidos. Não ganham medalhas ou estátua em praça pública. Os heróis do povo miúdo são anônimos. Essa circunstância os torna ainda maiores.

A GRANDE GUERRA

Direção: Mario Monicelli (Itália, 1959). Elenco: Alberto Sordi, Vittorio Gassman e Silvana Mangano. Distribuição Versátil. Preço: R$ 44,90.

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