‘Trágica.3’ revê heroínas da antiga Grécia

Leticia Sabatella, Denise Del Vecchio e Miwa Yanagizawa reinterpretam Antígona, Electra e Medeia

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

26 Abril 2014 | 03h00

Em seu novo espetáculo, o diretor Guilherme Leme leva adiante procedimentos que já havia utilizado antes. Há quatro anos, ele dirigiu RockAntygona, uma leitura para a tragédia grega de Sófocles, em que ruídos e batidas eletrônicas iam sendo incorporados à cena.

Com estreia marcada para este sábado, 28, no CCBB, Trágica.3 retoma essa ideia para desdobrá-la e multiplicá-la. Na atual montagem, Antígona ganhou a companhia de Electra e Medeia, outras duas heroínas da dramaturgia clássica. Além disso, mais uma vez, Leme foi buscar referências contemporâneas, inclusive sonoras, para encenar uma história antiga.

Originalmente, cada uma dessas mulheres tem seu lugar em peças repletas de acontecimentos e outros personagens. Para Trágica.3, foi feita uma adaptação livre, que abdica de uma série de informações para concentrar-se nos conflitos e angústias das protagonistas.

Três módulos, de 20 minutos cada um, compõem a peça. No primeiro, Antígona aparece recriada pelo autor Caio Andrade e é interpretada por Leticia Sabatella. Uma proposta que traz, segundo a atriz, "um olhar poético sobre o mito".

Além do texto, interferências musicais entram em cena. Leticia entoa cânticos e lamentos, inclusive em grego. E, à vista da plateia, o DJ Marcello H e o ator Fernando Alves Pinto executam ao vivo a trilha sonora. "Aqui, a música é ruído e o ruído é música. Muito contemporâneo, mas também muito tribal", acredita Leticia.

O artista plástico norte-americano James Turrel serviu de referência visual para o diretor. Referência no campo da ‘light art’, Turrel explora a imaterialidade da luz para criar estados sensoriais.

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Tragédias necessárias. Filha de Édipo, Antígona foi condenada por insistir em enterrar o irmão, o que contrariava as ordens reais. Aos olhos de hoje, seus atos são compreensíveis e justificáveis. O que não ocorre com a mesma intensidade com as outras duas personagens.

Envolvida no assassinato da mãe, Electra (Miwa Yanagizawa) une-se ao irmão, Orestes, para vingar a perda do pai que adorava, Agamemnon. O dramaturgo Francisco Carlos assina a versão do texto, que sublinha o ódio cego da protagonista. "Nesse mundo absurdo em que vivemos, as tragédias se tornaram banais. Por isso, essas peças se tornaram urgentes e necessárias. São um espaço para a reflexão do que costumamos vivenciar de forma tão ligeira", comenta Miwa.

A Denise Del Vecchio cabe o papel de Medeia. Talvez a mais conhecida entre essas histórias trágicas. E a mais revolucionária delas. Assassina dos próprios filhos, Medeia não é punida por seus crimes e escapa ilesa de seus perseguidores. "Essas tragédias são civilizatórias. Falam de ética, de moral", aponta Denise.

Para essa parte final do espetáculo, o diretor buscou uma já celebrada recriação do mito. Em MedeaMaterial, o alemão Heiner Müller lança mão de um texto fragmentário e escolhe a traição como foco. Traição não apenas na acepção conjugal.

Afinal, Jasão trocou Medeia por uma mulher mais jovem. Mas a traída era ela mesma traidora. Antes do casamento, já havia renegado sua pátria e sua família para estar com ele.

O vídeo que serve de cenário à saga dessa personagem acrescenta mais uma camada ao mote de Müller. Projetadas, vemos duas crianças brincando à beira-mar. São os filhos de Medeia, que ela também renega quando passa a considerá-los como traidores.

TRÁGICA.3

CCBB. Teatro. Rua Álvares Penteado, 112, 3113-3651, metrô Sé. Sáb. e 2ª, às 20 h; dom., às 19 h. R$ 10. Até 7/7.

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