Trágica triologia greca

Caixa reúne adaptações de Eurípides dirigidas por Michael Cacoyannis

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

31 Janeiro 2012 | 03h08

Quando o cineasta grego Michael Cacoyannis morreu, em julho do ano passado, o jornal The Independent lembrou, com justa razão, que poucos realizadores viram seus personagens transcender o tempo e o espaço para personificar uma filosofia de vida. A citação dizia respeito ao filme mais conhecido de Cacoyannis, Zorba, o Grego, baseado no livro homônimo de Nikos Kazantzakis. Os dois viraram sinônimos da cultura grega contemporânea. Zorba chegou até a ser adaptado como musical na Broadway, mas a experiência de Cacoyannis no estrangeiro foi um tanto desastrosa - quando a Junta Militar tomou o poder (1967-1974), ele foi conduzido ao exílio em Paris e Dublin (é do primeiro ano da ditadura grega a produção inglesa O Dia em Que os Peixes Saíram d'Água, seu filme mais fraco).

Fora da Grécia, Cacoyannis era mesmo um peixe fora d'água. E, também por isso, seus melhores trabalhos foram inspirados no que seu país tem de melhor a oferecer: a tragédia clássica. Dois anos antes de rodar Zorba, isto é, em 1962, Cacoyannis resolveu comemorar seus 40 anos filmando Electra, transposição da peça de Eurípides. A ela se seguiriam duas outras tragédias do mesmo autor, As Troianas (1971) e Iphigenia (1977), também dirigidas por ele e reunidas agora num box lançado pela Cult Classic. Superproduções com centenas de figurantes, os filmes trazem um elenco de estrelas. As Troianas, por exemplo, reúne Katharine Hepburn, Vanessa Redgrave, Geneviève Bujold e Irene Papas. Todos têm trilhas assinadas pelo colaborador habitual de Cacoyannis, Mikis Theodorakis, autor do tema de Zorba.

Pela ordem, é aconselhável começar a ver a trilogia por Iphigenia, exuberante exercício de reconstituição do que devia ser a Grécia dos deuses e heróis (inclusive com instrumentos gregos antigos na trilha). Cacoyannis filma (de helicóptero) um exército de guerreiros nus na praia, não como uma superprodução hollywoodiana, mas como uma massa disforme, acéfala, matando o tempo e pronta para ser comandada. É esse mesmo exército que vai exigir de Agamenon a execução da filha Iphigenia para aplacar a ira dos deuses - o rei matou um cervo sagrado para alimentar seus soldados, estacionados à espera do vento, e deve pagar por isso.

Até mesmo por ter sido vítima dos coronéis, como Theodorakis, Cacoyannis transforma a contenda entre militares e deuses, em Iphigenia, num desarranjo ético em que inocentes civis sofrem por causa dessa assimetria. Iphigenia aceita sua morte por permanecer ligada aos valores arcaicos, ao respeito pelo sagrado, enquanto o pai é movido pelo desejo da conquista material - Troia, afinal, não passou de uma guerra por um porto estratégico, disfarçada em combate pelo rapto de Helena.

Ao contrário do que era comum nos anos 1970, Cacoyannis não sucumbe à sedução de "atualizar" a tragédia - decisão sábia, considerando que Iphigenia, ao defender o sagrado, resiste à profanação do poder temporal, para usar uma expressão pasoliniana. É comovente a interpretação da jovem Tatiana Papamoschou em sua estreia no cinema, aos 13 anos, assim como a da veterana Katharine Hepburn como Hécuba, a rainha vencida de As Troianas, e de Irene Papas como a vingadora Electra.

Até por ser o único filme da trilogia rodado em preto e branco, Electra parece o mais realista. A tragédia desce ao nível do drama familiar, mostrando como a religião e o poder - sendo ambos objetos de institucionalização - corrompem. O uso de Orestes (Yannis Ferthis) por Electra para cometer um crime - o assassinato da própria mãe - revela seu gosto arcaico pela barbárie, o mesmo que conduz à falta de senso dos soldados gregos ao violentar e levar à escravidão as vítimas de As Troianas.

Parece claro que Cacoyannis realizou essa trilogia não só para ensinar como se faz uma tragédia grega, mas para alertar as novas gerações sobre a ferocidade terrorista que se instala quando a religião encontra a política. Um encontro explosivo numa trilogia essencial, definitiva.

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