Tragédia sóbria

Conhecido pela exuberância e estilo barroco, Gabriel Villela faz um Macbeth de tons sombrios e contidos

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2012 | 03h16

William Shakespeare já escrevera Hamlet. Não havia como imaginar que nada de mais surpreendente pudesse vir depois disso. Mas daí surgiram Rei Lear e Macbeth - suas maiores tragédias.

Macbeth é a fábula de uma ambição sem limites. Fala da ruína que sucede a ganância e a soberba. Porém, vai além. Lança luzes sobre o instinto de morte que move o outrora herói. Em um primeiro momento, o bravo comandante resiste à ideia de assassinar o rei para tomar o seu lugar. Tem tormentos de consciência, precisa ser insuflado pela perfídia da mulher, Lady Macbeth.

Contudo, tão logo tem as mãos manchadas de sangue, não consegue mais refrear suas pulsões primitivas. Segue matando por não ser capaz de lidar com o peso dos próprios atos.

Gabriel Villela evoca uma leitura freudiana do tema. "No artigo Arruinados pelo Êxito, Freud fala justamente de como o casal não suporta tamanho êxito e sucumbe. Seja pela loucura, no caso de Lady Macbeth, seja pela sede de sangue, no caso dele", aponta o diretor.

Atemporal e inflada de significados míticos, a trama mereceu uma leitura sóbria do encenador. Seu estilo, notoriamente exuberante, aparece contido. As cores tornaram-se mais escuras. A música, tão presente em seu teatro, concentrou-se em situações pontuais. Em seu lugar, despontam ruídos, barulhos, sinos.

Traduzido por Marcos Daud, o texto mereceu adaptação do próprio Villela. Desapareceram personagens e enredos secundários. Surgiu a figura de um narrador, responsável por instaurar a aura de distanciamento brechtiano que contamina o restante do elenco em suas interpretações.

Nesse contexto, a maldade de Lady Macbeth, há séculos fonte de estudos e elucubrações, não é construída por um viés psicológico. Não parece necessário dar conta de suas motivações ou de uma suposta essência, como seria natural em uma montagem de pretensões realistas.

Aqui, bastam alguns traços para que se delineie sua natureza maligna. "Preocupei-me em não buscar um estereótipo do feminino, uma voz caricata", comenta Claudio Fontana. No elenco, formado apenas por homens, cabe a ele interpretar a vilã. Vestido inteiramente de negro, e com o rosto pintado de branco, lembra uma gueixa. "E foi justamente a partir dessa máscara que fiz toda a composição dos movimentos", explica ele.

Ao se debruçar sobre Romeu e Julieta e Ricardo III, Villela criou duas versões carnavalizadas e vigorosas do teatro shakespeariano. "E eu concebi Macbeth sob o impacto dessas duas peças, mas tomei, aqui, outro caminho", diz ele. A temperança e austeridade que se veem na nova peça sinalizam outra estética e traduzem também um propósito claro: concentrar e verticalizar os elementos da tragédia.

"A opção pela sobriedade narrativa é particularmente interessante por contrastar com o personagem", acredita Ivan Andrade, que assina a assistência de direção ao lado de César Augusto e Rodrigo Audi. "Macbeth teve a sua sobriedade abalada. É alguém como qualquer um de nós, mas que perdeu o controle."

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