TRAGÉDIA POPULAR

Em sua versão de Édipo Rei, diretor Eduardo Wotzik foge de linguagem erudita e busca comunicação com a plateia

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2013 | 02h11

Para Aristóteles, não havia exemplo mais perfeito de tragédia grega. E foi assim que Édipo Rei atravessou os séculos. Influência para as bases da psicanálise. Personagem mítico que desdobra conflitos do indivíduo e da política. O espetáculo que o diretor Eduardo Wotzik mostra no Sesc Belenzinho, após temporada no Rio, nasce dessa convicção. "Investigar Édipo é como investigar o próprio homem", argumenta ele. "Vejo como um presente que Sófocles deixou para a humanidade se divertir por toda a existência."

É como projeto de vida que o encenador encara a atual montagem. "Tenho a impressão de que tudo que fiz na minha carreira até agora foi só uma preparação para chegar aqui." Os planos de levar a história clássica ao palco nasceram em 2007 - a partir do encontro com o ator Gustavo Gasparani. E, desde então, já deram origem a uma série de leituras, oficinas e debates.

Na pele do personagem título, Gasparani vê-se diante do primeiro papel trágico de sua trajetória, majoritariamente ligada a comédias e a musicais. Em 2012, dividiu-se entre os papéis de um travesti no espetáculo musicado As Mimosas da Praça Tiradentes e do radialista Gentil Soares, na novela da Globo Cheias de Charme. "Venho de um percurso diferente. O mais perto que tinha chegado de algo assim foi com a tragédia carioca de Nelson Rodrigues, Bonitinha, Mas Ordinária", comenta o ator, que divide a cena com veteranos, como Amir Haddad e Rogério Fróes. "Mas não mudei a forma de trabalhar por causa disso. A situação representada é trágica. O meio para alcançá-la é o mesmo."

Quem vive desafio semelhante é Eliane Giardini. Distante do teatro há cinco anos, a intérprete saltou do sucesso televisivo Avenida Brasil para viver Jocasta, a mãe que se casa com o filho, assassino do próprio pai. "A gente está acostumada a trabalhar com o drama e com as próprias referências. Você sempre procura, na memória, uma emoção que seja similar àquela que você está interpretando. No caso do registro trágico, isso não existe. Essa sensação é uma invenção. Não tenho referência para imaginar algo assim."

Para todos. Parcela considerável da plateia já chega ao teatro sabendo qual é a trama à qual vai assistir: um oráculo prevê que o filho do rei Laio vai matar o pai e depois se casar com a mãe. Para fugir à profecia nefasta, o casal manda assassinar o recém-nascido. Ele, porém, acaba escapando e, sem saber, cumpre o mal que o destino lhe reservou.

Na tentativa de preservar o texto, alguns dos encenadores que montam tragédias optam por retomá-las tal qual foram escritas. Há, no outro extremo, aqueles que preferem se valer dos argumentos trágicos para criar suas leituras particulares, com feições contemporâneas.

A versão de Eduardo Wotzik não segue por nenhum desses dois caminhos. Tenta manter-se fiel ao texto. Mas não hesita em eliminar aquilo que poderia dificultar sua compreensão pelo público e alcança uma enxuta encenação, com pouco mais de uma hora. "Em geral, as traduções e adaptações têm distanciado a tragédia do espectador, tornando-as mais eruditas. Complicando sua linguagem e impedindo a clareza de sua narrativa", considera o diretor. "Trabalhamos no sentido inverso, buscando sempre a comunicação imediata do público. O que fiz foi ressaltar suas características. Édipo Rei é, na verdade, um thriller, uma trama perfeita com final surpreendente."

Além de espantoso, o desfecho da saga pode suscitar interpretações distintas. Existe, em primeiro plano, o conflito entre destino e livre-arbítrio. Mas há, também, uma contraposição entre o desejo pessoal e o dever coletivo. Ao descobrir-se como assassino paterno, Édipo não decide imolar-se, perfurando os olhos, apenas para expiar a culpa. Para além do parricídio e do incesto, coloca-se a sua responsabilidade como governante de Tebas. O lugar social excede as vontades do indivíduo. "Ele está pensando na sua função social. Culpa é um sentimento cristão. Não acho que seja essa a sua motivação", acredita Gustavo Gasparani. "Sua atitude é de cumprir a sentença que ele mesmo havia determinado no início da história para quem fosse o assassino. Édipo sabe que precisa dar o exemplo."

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