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Tragédia pessoal e indignação

Enchente, sobre inundações na Cidade de Deus, em 1996, abriu em Tiradentes mostra dedicada à experimentação

Luiz Carlos Merten - O Estado de S. Paulo, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2011 | 00h00

E a Mostra Aurora, menina dos olhos da Mostra Tiradentes, começou ontem mais ligada à política do que à experimentação de linguagem com Enchente, de Júlio Pecly e Paulo Silva. O documentário da dupla carioca retoma imagens da grande enchente que atingiu o Rio em fevereiro de 1996. Somente na cidade de Deus, morreram 80 pessoas. Pecly e Silva são daquela região demonizada na tela pelo filme de Fernando Meirelles. Ambos já tinham o desejo de ser cineastas. Tão logo se deram conta de que haviam sobrevivido - as perdas foram materiais, familiares e amigos também sobreviveram -, eles se prometeram fazer um filme sobre o assunto.

Enchente é a concretização desse desejo. O filme produzido pela Cavi Vídeo recorre a vasto material de arquivo, acrescido dos depoimentos que os diretores colheram hoje. Desde o início, a empresa produtora cobrava que os diretores, por terem vivido a tragédia, se colocassem em cena. Ambos estão no filme, mas de maneira discreta. "Se era para ser piegas, bastaria usar as imagens da Globo", Paulo Silva disse ontem no debate sobre Enchente, após a exibição do filme na segunda-feira.

Vários depoimentos se referem à força das águas naquele fevereiro como o antes e depois de muitas vidas. E todos até hoje tentam entender o que se passou. Já não chovia quando as águas invadiram a Cidade de Deus. Há indicações de que as comportas de uma represa foram abertas para evitar o risco de rompimento. As imagens de arquivo mostram uma população carente que tudo perdeu, até os entes queridos. A Globo mostra o prefeito César Maia a bordo de um helicóptero. Como um herói trágico, ele se assume como responsável pela tragédia. Diz-se abandonado pelo governo Federal e pelo estadual. Gary Cooper e James Stewart não foram mais solitários nos faroestes clássicos que fizeram.

Pecly lembra-se do efeito devastador que aquela imagem teve sobre ele, quando a viu na TV, na época. Ele odiou o político que sequer enlameava os pés, olhando, como um observador distante, do alto, para o horror que se instalara. "Demorou 15 anos, mas me vinguei dele botando a imagem no filme, para que as pessoas possam ver e avaliar o descaso dos políticos. Espero que ele veja."

Como sobreviver à tragédia? Aturdida, a população jogava no lixo o pouco que tinha, sem nem pensar se parte, pelo menos, daquele material poderia ser salvo. Era como se todos sentissem a necessidade de renascer. O filme tem muitos momentos fortes. Foi aplaudido em cena aberta quando uma mulher revê o próprio depoimento da época. Ela não acusa somente o poder público pela falta de projeto para evitar a cíclica repetição da tragédia. Antes da enchente de 1996, houve a de 1966, como houve agora a de 2011, não propriamente sob a forma de águas demenciais, mas de deslizamentos que causaram mais de 700 vítimas. Ela acusa a mídia, que só se interessa pela desgraça. E chora: "Somos gente." Esse tema volta numa imagem fortíssima. Dois homens carregam... O quê? Parece um cachorro, um animal. É o cadáver de uma criança.

Pecly e Silva utilizam imagens de várias texturas. Beta e VHS no material de arquivo, digital nas imagens captadas agora. O tom, na maior parte do tempo, é jornalístico. A urgência sobressai, inclusive porque, em momento algum, a elaboração formal se superpõe à indignação. O filme poderia ser mais elaborado? As próprias texturas da imagem poderiam ser mais bem trabalhadas? Sim. Mas aí seria outro filme - talvez o de experimentação que se poderia esperar da abertura da Mostra Aurora. A força, de qualquer maneira, é inegável. Pecly e Silva exorcizaram seu demônio.

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