Tragédia na tela grande

Baseado em casos reais, o filme 'O Impossível' inspirou-se nas memórias da catástrofe após o tsunami de 2004

Pedro Caiado, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2012 | 12h07

O Impossível é um filme árduo, porém gratificante. Baseado na história real de uma família espanhola que sobreviveu ao desastre de 2004, o filme vai ao limite para contar o drama sem frescuras. A sequência inicial que mostra a enorme onda destruindo o resort e a vida de uma família é chocante o suficiente para nos segurar a respiração.

Em entrevista ao Caderno 2 em Londres, o jovem diretor espanhol Juan Antonio Bayona (do bem-sucedido suspense O Orfanato) explicou que a história contada na tela grande é mais próxima da realidade do que imaginamos. "Para realizar o filme, trabalhamos muito próximos da família. Trocávamos bilhetes a todo instante. Contatamos muitos sobreviventes e fizemos pesquisa na internet para conseguir recriar aquela experiência", conta ele. "Queríamos mostrar como deveria ser estar naquele instante."

O longa começa com uma viagem de avião. Maria (Naomi Watts), Henry (Ewan McGregor) e seus três filhos vão passar as férias de Natal na Tailândia. Quando chegam, trocam presentes e vão para a piscina, assim como as dezenas de turistas hospedados, até que o barulho distante de uma onda traz o inevitável. Não há tempo para fugir quando o tsunami atinge o local.

O diretor admite que seria mais fácil contar uma ficção, ao invés de uma história real. "Este foi um dos desafios realmente. Mas ter a família no set era um lembrete a todo instante de que filmávamos uma história real de uma tragédia. E filmar no local onde o desastre aconteceu também reforçou essa ideia", explica ele sobre a produção de orçamento reduzido.

No drama, Naomi Watts vive a frágil, porém corajosa, Maria, um papel desafiador. "Naomi é uma atriz que quer sempre mais e melhor. Este filme é muito intenso e tentei ter essa intensidade também a todo instante no set. Lembro de filmar direto várias cenas. Naomi nunca estava cansada. Ela gosta de ir ao limite", diz, sobre a estrela britânica de 44 anos. Em uma das cenas mais impressionantes do filme, Naomi se afoga enquanto é atingida por objetos movidos pela força da onda que a machucam a todo instante. "Aquela foi uma cena muito difícil. Naomi teve de ficar sentada em uma cadeira de metal, girando dentro da água. Foi tudo muito real, sem computação gráfica. Tivemos de ter muito cuidado. Só podíamos filmar três cenas por dia, por exemplo. Mas tinha de ser de verdade", confessa ele.

Após o sucesso do suspense O Orfanato, de 2007, o nome de diretor espanhol foi muito procurado por Hollywood, até para a direção da saga Crepúsculo. "Fui muito sortudo após o sucesso de Orfanato, pois apareceram interessantes projetos. Mas, quando essa história apareceu, não consegui parar de pensar. Costumo dizer que não escolhi essa história - ela é que me escolheu."

Não seria muito cedo ainda para tocar neste delicado assunto? "Ouvimos um programa de rádio em que os sobreviventes falavam pela primeira vez sobre o desastre. Isso foi há quatro anos. Percebemos que, para aquelas pessoas, esse era o momento de começar a tocar no assunto", explica Bayona. "Lembro de estar no mesmo hospital da tragédia, filmando, quando um dos diretores veio nos agradecer pelo filme. Após uma tragédia, há um momento em que as pessoas decidem falar, e era agora."

Onde estaria o diretor no fatídico dia 26 de novembro de 2004? "Estava em casa, com a minha família, quando soube do tsunami, mas lembro de achar aquilo muito longe da minha realidade. Foi com essa perspectiva que pensei esse filme. Queria que as pessoas sentissem como teria sido viver aquilo tudo."

Com a profunda recessão vivida pela Espanha hoje, Juan confessa que seu próximo filme provavelmente não será uma produção que sairá de seu país. "O título O Impossível virou uma piada por conta disso. Mas começamos a trabalhar neste filme há quatro anos, quando a situação era diferente. O filme foi vendido para vários países (incluindo a Tailândia), antes do início da produção, o que facilitou. Mas não sei se conseguiria fazê-lo agora. No entanto, a crise na Espanha é financeira, mas não de talentos", defende ele.

Após O Impossível, e a aprovação de Guilherme Del Toro - "Ele amou o filme" -, qual seria a ambição do diretor espanhol? "Minha meta é ter controle do que faço. Se puder fazer isso em Hollywood, tudo bem, se não, não."

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