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Tragédia familiar, na África

Mahamat Saleh Haroun evoca Murnau em Um Homem Que Grita

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2010 | 00h00

Mahamat Saleh Haroun - o grande autor do Chade - estará nesta quarta-feira, 3, na cidade para apresentar seu filme Um Homem Que Grita na Mostra. Em Cannes, em maio, o júri presidido por Tim Burton atribuiu a Saleh Haroun seu grande prêmio. É uma pena que Youssouf Djaoro não tenha recebido também o prêmio de melhor ator. Ele é excepcional como o ex-campeão de natação que trabalha como salva-vidas na piscina de um hotel de luxo da capital, N"Djamena.

Formado em cinema (em Paris) e jornalista (em Bordeaux), Saleh Haroun fez sua formação intelectual e profissional na França, mas foi Veneza que lhe deu primeiro reconhecimento. Seu primeiro longa, Bye-Bye Africa, de 1999, foi eleito o melhor filme de estreia e Darrat, Dry Season também venceu no Lido o prêmio especial do júri, há quatro anos. A sombra de Friedrich W. Murnau projeta-se sobre Saleh Haroun. Não há como não pensar em A Última Gargalhada, também conhecido como O Último dos Homens, a propósito de Um Homem Que Grita.

O protagonista chama-se Adam, como o primeiro homem. Tem um filho, Abde, ou Abel. As referências bíblicas não são gratuitas. Como Caim, Adam, o pai, trairá o próprio filho. Numa cena particularmente reveladora, a mulher observa, para Adam, que ele está mudado, ao que o marido responde - continua o mesmo, o mundo é que mudou. Adam é até hoje tratado como campeão e merece o respeito de todos na sua comunidade. Mas o hotel, como toda a economia neoliberal, passa por uma reformulação. Adam perde o posto de salva-vidas, substituído pelo filho. Seu amigo cozinheiro, que diz fazer seus pratos com amor, torna-se obsoleto e é demitido. O velho cozinheiro guardava restos de comida para um cachorro. O novo cozinheiro expulsa o vira-latas a pedradas. Os próprios homens, descartados, são tratados piores do que cães.

Mas Adam ainda tem sorte. Dão-lhe outra função e ele detesta o uniforme que é forçado a usar. Sem medir as consequências, ele se livra do filho e, depois, corroído pela culpa, tenta localizar o garoto, que foi engolido pela guerra (civil) que divide o país. Saleh Haroun situa sua história na vertente intimista de Poetry, do coreano Lee Chang-dong, outro grande filme de Cannes presente na Mostra.

Quem conhece a obra precedente do autor talvez considere Um Homem Que Grita, no limite, um tanto inferior a Darrat, Dry Season, mas é que o outro filme é melhor ainda. Saleh Haroun filma muito bem, com rigor. A primeira parte evoca Murnau, a história do uniforme, a última gargalhada, do último dos homens. Na segunda parte, Adam atravessa a África, o Chade (e a guerra). É uma experiência e tanto. Humana, estética, ética.

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