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Tragédia familiar em embalagem high tech

O melhor de 'Tron: O Legado' é o resgate da relação entre pai e filho

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2010 | 00h00

No começo dos anos 1980, Francis Ford Coppola e Jean-Luc Godard incorporaram o vídeo e sinalizaram a revolução digital que se consolidaria no cinema das décadas seguintes. Em 1982, na Disney, Steven Lisberger foi profético e, como um visionário, anunciou o admirável/assustador mundo novo que estava por vir. Um inventor é sugado para dentro de sua invenção e fica prisioneiro do mundo virtual que criou. Tron ia muito adiante do computador HAL-9000 de Stanley Kubrick em, 2001, Uma Odisseia no Espaço. Sem Tron talvez não houvesse Matrix, dos irmãos Wachowski, nem toda a portentosa revolução digital de James Cameron em Titanic e Avatar.

Tron representava o desconhecido do cinema. Mas, por mais impressionantes que fossem seus efeitos - à base de néon, principalmente -, eles ainda eram primitivos em face do que a tecnologia hoje oferece como ferramenta para os realizadores.

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O próprio James Cameron disse em São Paulo que agora a imaginação é o limite. Existe técnica para fazer não importa o quê. Há pouco menos de três décadas, porém, a Academia de Hollywood desqualificou os efeitos de Tron para o Oscar justamente porque muita coisa havia sido concebida no computador. Era como "trapacear", para os velhinhos da academia.

Tudo isso é história, mas dado que Tron fracassou nas bilheterias, na época - Blade Runner, de Ridley Scott, seu contemporâneo, também não foi bem de público, mas virou mais rapidamente cult -, sempre houve na Disney a vontade de dar ao filme uma segunda chance. Tron, segundo a lógica do estúdio, não fracassou por falta de qualidades, mas por estar à frente de sua época. O produtor Sean Bailey resolveu não apenas bancar a produção, mas também Joseph Kosinski. Ele assina uma das produções recentes mais caras de Hollywood - orçamento declarado de US$ 170 milhões, menos o marketing, que consumiu anos de preparativos.

Pois Tron, o filme, é apenas a ponta de um iceberg que inclui 1001 itens de consumo, incluindo brinquedos e videogames, todos destinados a celebrar o embate entre o herói e os vilões virtuais, justamente Clu e Tron, os guerreiros que o inventor Jeff Bridges criou - Clu à sua imagem - para guardar o universo paralelo. Kosinski, embora neófito no cinema, já era um veterano na publicidade e foram justamente seus comerciais para a Chevrolet e a Nike que convenceram Sean Bailey a bancar seu nome para a direção. Bailey sempre defendeu que não bastava refilmar Tron. Era preciso reinventar o original, daí o Legacy, Legado, acrescentado ao título. O diretor antigo, Steven Lisberger, foi incorporado ao projeto como produtor executivo e consultor. Mas a concepção visual é integralmente de Kosinski.

Ao optar por um estreante, Bailey e a Disney talvez acreditassem que Kosinski seria mais fácil de manipular. O diretor revelou-se mais firme do que eles pensavam - e disposto a brigar pelas próprias ideias. Foram três anos de trabalho - o contrato foi assinado em 2007 - e o visual impressiona, mas também é, paradoxalmente, o elo fraco da produção. A trilha é o melhor - e ela carrega o filme, faz com que percorra uma vasta gama, do doméstico e familiar ao épico e gigantesco.

Ação esticada. Em 1968, Stanley Kubrick encomendara a Alex North a trilha de 2001, que o compositor criou (e ela saiu em disco). Mas Kubrick mudou tudo ao perceber que a música erudita (Strauss, Ligetti, etc.) seria muito mais forte para acompanhar as imagens de sua "space opera". Kosinski não tinha dúvida de que o Daft Punk, o grupo eletrônico mais influente do planeta, lhe daria o som que queria (leia abaixo). O filme, embora grandioso, carrega na essência uma tragédia familiar. Na cena de abertura, Kevin Flynn narra para o filho as aventuras de Clu e Tron neste mundo virtual que criou e ao qual o menino não tem acesso. Flynn despede-se prometendo voltar no dia seguinte. Desaparece e, 28 anos mais tarde, o filho o reencontra ao transpor o portal para o mundo paralelo.

Existem elementos de muitas mitologias - o "órfão" de Batman, a utopia futurista que virou império econômico -, mas o que importa é o conflito/reencontro entre pai e filho e o esforço de Flynn Jr. para trazer o pai de volta. O mundo virtual virou uma ditadura insuportável, onde os "usuários" são os inimigos dos "programas". Boa parte desses embates se resolve na arena, como no Circo Máximo de Gladiador. Apesar de esquemática, a relação pai/filho é forte, como a dos irmãos em Speed Racer, dos irmãos Wachowski. Lembrando os westerns de Budd Boetticher, o vilão, Clu, é o reverso do herói, Flynn pai, que o criou em busca de uma perfeição impossível para o gênero humano. Toda a ação parece esticada para levar o filme às suas 2 horas. Com Jeff Bridges e Garrett Hudlund em cena, Kosinski retoma sua essência. Legacy - o legado. Tron é sobre o mundo virtual como A Rede Social é sobre o horror das relações no Facebook e as duas coisas estão mais relacionadas do que parecem.

TRON: O LEGADO

Nome original: Tron Legacy. Direção: Joseph Kosinski. Gênero: Ficção científica (EUA/ 2010, 127 min.). Censura: 12 anos.

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