Tragédia dos homens de bem celebra casamento de mídias

Crítica: Luiz Carlos Merten

O Estado de S.Paulo

03 de março de 2013 | 02h09

JJJJ ÓTIMO

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Há um antes e depois de Pai Patrão na história do cinema moderno. Em 1977, como presidente do júri do Festival de Cannes, Roberto Rossellini jogou todo seu prestígio para garantir a vitória do telefilme dos irmãos Paolo e Vittorio Taviani. Ele próprio diretor de filmes produzidos pela (e para a) televisão, Rossellini percebeu que o filme não poderia mudar apenas a economia do cinema - aquele era um tipo de tema exigente ao qual a ditadura do mercado talvez não fosse sensível. Pai Patrão foi feito em parceria com a TV, ganhou espaço nos cinemas e fez história.

Os Taviani fazem história, de novo. Na entrevista acima, Fabio Cavalli, diretor da peça dentro de César Deve Morrer, fala da experiência com os detentos da Penitenciária de Segurança Máxima de Rebibia, em Roma. O teatro mudou a vida daqueles homens sentenciados - alguns, para toda a vida - por seus crimes. César Deve Morrer não se destina a quem acha que bandido bom é bandido morto. Todo mundo tem direito a uma segunda chance. Os detentos de Rebibia, descobrindo a poesia e a beleza do teatro, tomam consciência da própria miséria. Um deles diz a frase definitiva ao voltar à cela - desde que descobriu o teatro, aquilo virou realmente para ele uma prisão.

Paolo e Vittorio Taviani rezam numa cartilha humanista de esquerda - e isso talvez faça deles autores obsoletos, como Ken Loach, num mundo que celebra a economia de mercado, sem nenhum atenuante para os excluídos. Mas nem Ken Loach nem os Taviani - por menos apreço que tenham por eles publicações como Cahiers du Cinéma - podem ser compulsoriamente aposentados. César Deve Morrer é a prova de que eles ainda têm bala na agulha.

César Deve Morrer acompanha a montagem de um texto clássico de Shakespeare pelos detentos de Rebibia. Júlio César discute relações de poder e o idealismo traído de Brutus, levado a participar da conspiração para matar o grande César. O que levou os Taviani a propor o texto foi uma frase dos conspiradores - todos se proclamam homens de bem, como os presos na cadeia. O filme é um modelo de concisão. Reduz para menos de 80 minutos a apresentação dos presos e a seleção de cenas da peça, que com frequência, têm a ver com a situação em que eles se encontram. Ao recitar falas de Shakespeare - adaptadas para o seu linguajar -, falam deles mesmos.

O filme é uma grande celebração do casamento de duas mídias, teatro e cinema. Desde Tio Vânia em Nova York, com que Louis Malle reinventou o teatro no cinema (e vice-versa), não se via nada igual. E mais até do que no filme de Malle, o elemento político - ideológico - superpõe-se ao artístico. Tocados pela beleza, os assassinos humanizam-se. A arte os transforma. Na entrevista, Cavalli fala da sua afinidade com os Taviani. O cinéfilo, que no passado amou Pai Patrão, A Noite de São Lourenço e Kaos, redescobre a força e complexidade dos Taviani, agora mais depurados. Sem nunca ter ido de verdade, eles voltam com um grande filme que já tem lugar entre os melhores do ano.

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