Tráfego põe em cena o humor de Jacques Tati

Nova montagem de Cristiane Paoli-Quito explora o cômico

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2010 | 00h00

  

 

Cena. Espetáculo encerra trilogia da Cia. Nova Dança 4 dedicada aos gêneros dramáticos

 

   Nada de grandes acontecimentos. São miudezas, momentos prosaicos, a vida comum seguida de encontros e desencontros que interessam a Cristiane Paoli-Quito. E foi assim, com os olhos voltados para as pequenices do cotidiano, que a diretora construiu Tráfego, espetáculo que estreia hoje no Sesc Santana.

Em seu novo trabalho à frente da Cia. Nova Dança 4, Quito debruça-se sobre a comédia, mais especificamente sobre a comicidade que brota do corpo.

No palco, os bailarinos partem dessa inquietação da criadora para compor movimentos calcados nas ligeirezas do dia a dia e que evoquem o humor de grandes comediantes do cinema, como Charles Chaplin, Buster Keaton e Jacques Tati. "Eles são virtuoses do corpo", define Quito.

Vem de Tati e de seu mais emblemático personagem, Mr. Hulot, o mote de Tráfego. Filmes como Playtime e Trafic, crônicas da sociedade moderna, dão o tom ao espetáculo, que tem trilha sonora de Claudio Faria, Natália Mallo e Mariá Portugal.

"Assim como nos longas de Tati, tentamos mostrar como a vida acontece em mínimas coisas, e vai sendo gerenciada pela rua, pelo fortuito", comenta a diretora, reconhecida por seu extenso trabalho de pesquisa sobre o palhaço e a criação do efeito cômico. "Outro dado que percebi em Tati é que, na sua obra, o rosto não é o mais importante, mas o corpo e suas angulações."

Trilogia. Tráfego encerra uma trilogia da Cia. Nova Dança 4. Antes, vieram Influência, Primeiros Estudos (2008) e O Beijo (2009). Em ambos, o foco recai sobre a pesquisa dos gêneros dramáticos - no cinema, na literatura ou no teatro - e suas reverberações na composição dos movimentos.

O universo de Alfred Hitchcock conduziu Influência, montagem que investigava o suspense. Já em O Beijo, as referências vinham do melodrama e a companhia foi beber em Nelson Rodrigues e no enredo folhetinesco e repleto de reviravoltas da peça O Beijo no Asfalto.

Para trafegar no universo rodriguiano, Quito valeu-se de sua estreita relação com o teatro. Investiu em personagens com contornos definidos e em uma dramaturgia mais robusta.

No novo espetáculo, o grupo deixa de lado o jogo teatral e se entrega com ímpeto renovado à dança. "Em O Beijo era verificável uma diferença entre as personagens. Agora, trabalhamos mais com um desenho geral da comicidade dos corpos. Contamos uma história que não é linear", resume a diretora.

TRÁFEGO

Sesc Santana.

Av. Luis Dumont Villares, 579, 2971-8700. 5ª e 6ª, 21h. R$ 16.

Até 2/7.

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