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Traduzir

Viver é adaptar, compreender, refazer, ser literal ou fugir do original em bela licença poética

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2018 | 02h00

Hoje é dia de São Jerônimo, padroeiro dos tradutores. Homem de cultura erudita e gênio difícil, o chamado “dálmata selvagem” foi assistente do papa Dâmaso no fim do século 4.º. Assim, 30 de setembro também é dia dos secretários e das secretárias. A obra máxima do santo é ter traduzido a Bíblia do grego e do hebraico para o latim. A versão das escrituras feita por Jerônimo, chamada de Vulgata, foi oficial para os católicos pelos séculos seguintes. No Renascimento, o debate sobre as traduções e quais os livros deveriam ser integrados ao cânone bíblico foram uma das origens da reforma religiosa. Traduzir era um gesto político e religioso na primeira modernidade.

Em geral fazemos uma pergunta linear: a tradução é boa? A resposta é complexa. Sim, existem erros graves que vão de opções equivocadas de vocábulos até sentidos muito distintos do texto original. Há questões mais intrincadas como ser mais literal ou optar por se descolar do texto original para que o público leitor entenda melhor. Em todo gesto de mudar a língua existe entropia, ou seja, perda do sentido original. Multiplicamos notas de tradução tentando reforçar o motivo da nossa opção e, mesmo assim, jogos de palavras, humor, expressões regionais e rimas perdem-se no éter entrópico. 

Hamlet anuncia que vai se deitar no “lap” de Ofélia. A jovem recua horrorizada como se ouvisse uma agressão vulgar. Os muitos tradutores de Hamlet optaram pela versão pudica e literal: “lap” é sinônimo de colo, e ele apenas estaria pedindo para deitar a cabeça em gesto quase filial e carinhoso. Por que Ofélia recua horrorizada? A palavra “lap” também era sinônimo de uma expressão tosca para o baixo corporal feminino, o ofensivo termo iniciado pela sílaba formada pela segunda letra do alfabeto mais a última vogal (ufa, que volta), mais comum em paredes de banheiros públicos do que em traduções shakespearianas. Assim entendemos o horror de Ofélia diante da vulgaridade do príncipe. E a cor e ritmo da língua? Como você colocaria em inglês ou alemão nossas expressões como ziriguidum? Lá vai outra imensa nota do tradutor. Em outras ocasiões, existe a perfeita palavra, como podemos traduzir o substantivo “merde” do francês para o português com o mesmo número de letras. Problema: o povo de Paris usa o termo em sala de aula sem achar que tenha o mesmo peso agressivo que damos ao vocábulo por aqui. 

Meu Waze anuncia que há um radar “reportado” à frente. Reflito sobre o anglicismo. Reportado foi alvo de uma reportagem jornalística? Por que não visto, avistado, indicado, sinalizado, percebido, localizado? Outra pergunta: fora o purista da língua, algum motorista teria dificuldade com a mensagem? A eficácia é integral e poderia sacrificar a lusofonia? As traduções adaptativas ou antropofágicas são comuns entre nós. Deletamos, printamos e reportamos com alegria. Muitos brasileiros olham para o espaço separador das roupas e dizem em tom fechado: “clôset”, pronúncia estranha para nativos do rio Avon que insistiriam em abrir: “clóset”. O mais curioso é que, a rigor, quem possui um “clóset” teria, possivelmente, condições de ter aperfeiçoado sua pronúncia. Somos tradutores de sons, igualmente.

Mário de Andrade havia lembrado (Macunaíma) que somos um povo tão rico, tão opulento, que temos uma língua para escrever e outra para falar. Walter Scott escreveu que, nas ilhas britânicas, o porco morria “swine” e chegava à mesa como “pork”. Entre o termo anglo-saxão e o de origem latina está parte da história britânica: camponeses falam uma língua germânica e a da elite é de origem continental normanda. A diglossia, a existência de duas línguas dentro de uma, existe até hoje. Temos termos de latim vulgar e erudito para muitas palavras e a opção do escritor ou falante denuncia origem e estudo. Fogo ou ígneo, cavalo ou equino? Entre os substantivos e adjetivos existe uma vala social. Quando eu traduzo, devo notar também tais questões. Quando há personagens de classes sociais distintas em Shakespeare, como a ama da peça Romeu e Julieta ou o porteiro de Macbeth, as palavras que uso em português devem refletir as inflexões que o bardo deu às personagens. A ama e o porteiro usam expressões e indiretas de baixo corporal estranhas para Lear ou Macbeth. 

Traduzir é arte combinada com conhecimento, técnica e intuição. Todas as traduções envelhecem, felizmente, pois mostram a vivacidade das escolhas e seu indefectível tom orgânico. 

Somos tradutores todo o tempo. Você traduz do ponto de vista psicológico quando adapta a frase exagerada da sua tia de que está morrendo e você sabe que se trata de um resfriado. Você traduz quando ouve o não da sua esposa ou do seu marido e interpreta se ele ou ela, de fato, quer dizer sim, talvez ou, peremptoriamente, não. Viver é traduzir, ressignificar, adaptar, compreender, refazer, trair, ser literal ou fugir do original em bela licença poética. Uma das grandes surpresas de tradução social de todo brasileiro em alguns lugares do exterior é perceber que 14h significa, exatamente, duas da tarde e não uma zona cinzenta a partir da qual, lentamente, começamos a contabilizar o atraso. Como eu traduziria para um alemão a frase inicial do evento no qual fui palestrante há pouco e que, marcado oficialmente para 19h, sendo já 19h40, o mestre de cerimônias anunciou solene: “Vamos começar agora para não atrasar”. Um teuto entraria em colapso conceitual: “Como assim, já estão atrasados 40 minutos!”. Até os números devem ser traduzidos de cultura para cultura. 

Traduzir é compreender ao máximo dois sistemas e lançar luzes sobre dois continentes separados pela maior fronteira humana: a cultura da língua. Minha homenagem hoje aos profissionais que fazem pontes e diminuem minha imensa ignorância. Possibilitam que eu leia muitos textos que seriam inacessíveis no original e que, acima de tudo, sofrem na cabina quando eu falo para plateias bilíngues. Parabéns a todas e todos tradutores do Brasil. Um voto especial de carinho a minha amiga Valderez. O mundo precisa muito de gente que facilite a compreensão. Bom domingo para todos nós!

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