'Traduzido, o poema grita dois nomes'

A Companhia das Letras me cedeu no seu blog um espaço para uma série de textos sobre tradução. E discussões interessantes têm surgido na mina de inesperabilidades que é a sessão de comentários.

Caetano W. Galindo,

01 de março de 2013 | 22h00

Tradução é coisa de bastidores, e quando o tradutor se vê na boca de cena, de pronto percebe que pouco se sabe do que faz. Mais ainda, percebe que uma parcela de alto nível do público leitor ainda acha que acha fundamentais certas coisas.

Tradução é uma operação de ilusão em que um texto é todo reescrito com base numa série de convenções muito bem estabelecidas mas algo indefiníveis, muito respeitáveis e muito respeitadas, que permitem manter a atribuição original de autoria. É mudar todo um texto sem que ele passe a ser outro.

Esse mesmo jogo confesso de autoria dissolvida que para alguns parece ameaçar a própria noção de "fidelidade", fica mais destacado na tradução de poesia, atividade tradicionalmente reconhecida como mais "autoral".

A noção do tradutor submisso, invisível, que permite pleno acesso a um original que não "conspurcou" com seu dedo vernáculo sujo não fica de pé diante da mais breve análise das dificuldades e constrições formais da tradução de um poema.

A corda é bamba. O vento é forte. Para chegar do outro lado, o tradutor precisou chamar para si certas responsabilidades, deixar no texto marcas muito claras da sua competência/incompetência. Ele está lá. Não há como não ver. E não há como desejar que fosse de outro jeito. Não há outro jeito.

Um poema grita uma autoria. Traduzido, chama dois nomes.

Traduzir a poesia de Paul Auster me possibilitou trabalhar com essas expectativas, e com essas dificuldades, novamente. E me possibilitou ver que ainda não consigo entender que a tradução de poesia seja qualitativamente diferente da de prosa. Acho apenas que quando certas questões não são mais escamoteáveis, tendem a ser mais comentadas. Mais na-cara.

Mas a questão no fundo é que antropólogos há décadas vêm deixando claro, casais sabem há séculos, e Paul Auster, leitor do filósofo Mikhail Bakhtin, certamente sabe também que a maneira mais honesta (única?) de se ser "fiel" é ser pleno, é ser plenamente "responsável".

É não fugir.

É aceitar que a interdependência altera os dois envolvidos. É não abrir mão de si ao se entregar, não moldar ao assumir.

Um tradutor só pode "sumir" se assumir toda a responsabilidade pelo texto, em parágrafos ou estrofes; só pode dar o melhor texto ao leitor se estiver com a consciência limpa de quem não se escondeu.

A poesia de Paul Auster passou por mim e me mudou. Terá saído alterada, mas (mais forte que já era) suficientemente intacta para alterar ainda cada leitor que a encontre.

Nova, sim. E viva.

CAETANO WALDRIGUES GALINDO É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ E TRADUTOR. VERTEU PARA O PORTUGUÊS ULYSSES, DE JAMES JOYCE (COMPANHIA DAS LETRAS), ENTRE OUTROS AUTORES DE LÍNGUA INGLESA

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