Tradutora de Daniil Kharms fala sobre 'Os Sonhos teus Vão Acabar Contigo'

Íntegra da entrevista com Daniela Mountian, tradutora, ao lado de Moissei Mountian e Aurora Bernardini, do volume Os Sonhos teus Vão Acabar Contigo, de Daniil Kharms, lançado pela editora Kalinka

Volume do autor russo é lançado pela editora Kalinka,

13 Setembro 2013 | 21h56

Como surgiu a ideia de preparar um volume com textos de Daniil Kharms?

Antes de tudo, pela criação surpreendente de Daniil Kharms. Apesar de pouco conhecido no Brasil, Kharms é um nome bastante respeitado na Rússia, na Europa e nos EUA. De uma ou duas décadas para cá, ele passou a ser um autor cultuado, sobre suas obras já foram feitas inúmeras releituras, animações, músicas, encenações, principalmente na Rússia, mas não só - neste ano, só para citar um exemplo, Robert Wilson incluiu em sua turnê “A velha”, a única novela de Kharms, com Mikhail Barýchnikov e Willem Dafoe no elenco. E como de Kharms tínhamos apenas alguns contos e poemas publicados, ele nos pareceu a escolha ideal para o segundo volume da coleção “Contos Russos Modernos (1900-1930)”, inaugurada com Leonid Dobýtchin em 2009, que privilegia uma série de autores que sofreu com a censura stalinista. A obra de muitos desses autores simplesmente desapareceu nos anos 1930, como no caso da de Leonid Dobýtchin, e só foi resgatada com o fim da URSS, na década de 1990. No caso de Kharms, seus textos sobreviveram por meio de edições clandestinas e de seus poemas infantis, os únicos publicados em vida e que sempre fizeram sucesso entre as crianças soviéticas, mas sua criação só foi conhecida integralmente na Rússia no fim da década de 1980. Além disso, a ideia da edição ganhou corpo com meu doutorado sobre Kharms, que comecei em 2012, e com os constantes incentivos de Moissei Mountian, que tem um apreço especial por inovações estéticas e conceituais do começo do século 20 e profundos conhecimentos da língua e da cultura russa, e da Aurora Fornoni Bernardini, uma grande apreciadora da obra do escritor e certamente uma de nossas maiores tradutoras e ensaístas. O processo de feitura do livro, a seis mãos, foi uma experiência muito fecunda.

Tanto na apresentação como no posfácio do volume, é introduzida a ideia de que “Kharms não fazia arte, ele era arte” – ou, como anota Aurora Bernardini, Kharms seria “um dos exemplos mais pungentes da vida que condiciona a arte”. Como essa característica se revela em sua obra?

É claro que todo autor está de algum modo implicado em sua obra, mas nem sempre isso é um ato artístico consciente. No caso de Kharms, é um ato consciente e define característica decisiva de sua criação. Como em Vladímir Maiakóvski, em Daniil Kharms há uma fusão indissolúvel entre obra e persona. Várias passagens de seu diário poderiam tranquilamente ser um de seus “causos”. E muitas vezes sua própria figura aparece inserida nos textos - “Sou alto, nada tolo, estou sempre bem-apessoado e elegante, não bebo nem frequento corridas de cavalos, mas tenho um fraco por mulheres”, em “Sinfonia no 2”. Mas há um elemento interessante nessa autorrepresentação, pois ela não é confessional: com exceção de alguns poemas, Kharms, enquanto personalidade fictícia, é quase que um observador de si mesmo, assim como do mundo: “Olho ao redor e me vejo em meu próprio quarto, de joelhos no meio do chão. Aos poucos recobro a memória e a consciência” (“A Velha”). A figura de Kharms não se concretiza, o autor se dissolve no ato da narração, assim como muitas de suas personagens. Sua persona ficcional se insere numa obra que se propõe impessoal e “não literária”, com um ponto de vista externo e um método pautado no irracional.

E a arte também deixa rastos profundos na vida de Kharms. Para ele, não havia divisão. Jakobson, em seu ensaio “A geração que esbanjou seus poetas” (CosacNaify, 2006) nos diz que “... foi o próprio Maiakóvski quem escreveu que até o traje do poeta, até sua conversa doméstica com a mulher deveriam estar determinados pela totalidade de sua produção poética”. E foi assim também com a figura esguia e extravagante de Kharms, que tomava atitudes hilárias, vestia-se com a pompa de Sherlock Holmes, dizia detestar crianças... ele corporificava todo o estranhamento de suas ideias e criações.

A mistura de gêneros é frequente nos textos de Kharms. Seria essa uma das características mais definidoras da poética do autor?

A mistura de gêneros é uma caraterística que aparece em muitos autores vanguardistas. É um dado da vanguarda russa e das vanguardas em geral do começo do século 20. Na verdade, a mistura de gêneros não é algo criado pelas vanguardas, mas é retomado por elas e por elas transformado num procedimento (a mistura em si passa a ser a temática de várias obras). Kharms, sendo, digamos, filho da geração dos cubofuturistas (Khlébnikov, Maiakóvski, Krutchónykh, etc.), herda esse recurso formal, assim como tantos outros desenvolvidos na década de 1910. Os textos de Kharms não têm, portanto, uma definição clara, transitam entre prosa, poesia e teatro com naturalidade. Então, de fato, essa seria uma das caraterísticas definidoras de sua estética, o que se revela com força na peça Elizaveta Bam (1928). Ele mistura várias expressões artísticas, parodiando-as e desconstruindo-as, e expressa um desencantamento, um esgotamento das formas convencionais de arte: “Ontem à noite fiquei sentado à mesa e fumei muito. Diante de mim havia um papel em branco para escrever. Mas eu não sabia o que devia escrever. Nem mesmo sabia se devia escrever uma poesia, um conto ou algum pensamento. Eu não escrevi nada e fui dormir. Mas fiquei um tempão sem pregar o olho. Eu precisava saber o que devia escrever. Enumerei mentalmente todas as formas de arte literária, mas não sabia qual era a minha. Podia ser apenas uma palavra, ou talvez eu devesse escrever um livro inteiro” (“Uma Manhã”). Foi por isso que fizemos uma edição que respeitasse essa pluralidade, essa espécie de polifonia formal. Aliás, como muitas edições que existiram no começo do século passado (Kharms mesmo idealizou algumas). Mas a maior novidade de Kharms talvez não resida aí. Nesse sentido, ele é de alguma maneira um representante típico dos artistas que imediatamente o antecederam ― a novidade talvez surja no humor. Acho que Kharms traz uma comicidade que, em geral, não definia a geração que o precedeu. E ele era um grande conhecedor dos teóricos do riso, como destaca a Aurora Bernardini. E, dentro desse humor, há toda uma filosofia, desenvolvida com seus amigos tchinari (um círculo de arte e filosofia criado por Vvediénski nos anos 1920), que ele incorporava a seus textos. Então, mais do que uma ruptura formal, Kharms inaugura uma literatura, sobretudo nos anos 1930, quase fenomenológica (ele conhecia e lia autores como Henri Bergson e Gustav Shpet). A obra de Kharms se aproxima do existencialismo, prenuncia de forma assombrosa (já que ele vem algumas décadas antes) o que se convencionou chamar de literatura do absurdo. Só que Khams parte da vida em si, ou, como diz a Aurora Bernardini, da “...vida verdadeira que só pode ser captada nas coisas mais esquisitas, nas atitudes mais desastrosas, nas ocorrências sem sentido, que são ao mesmo tempo banais e excepcionais”.

A obra de Kharms ficou bastante tempo “perdida”, sem edições. Em que sentido o retorno a ela ajuda a compreender a arte russa de sua época? Como definir a importância do autor na primeira metade do século 20?

A importância de Kharms, na minha opinião, ultrapassa os limites da época de sua produção. Naturalmente, sua obra, assim como qualquer obra, traz marcas de seu tempo. Kharms dialoga, normalmente via paródia, com a vanguarda russa, com artistas como Khlébnikov e Malévitch, com autores consagrados, como Púchkin e Gógol, com temáticas clássicas russas, como o caos e a loucura; ele traça com humor certos detalhes de sua ambiência e interage à sua maneira com todo o absurdo da época de Stálin. Mas, acima de tudo, a meu ver, Kharms dialoga com a própria fragilidade da existência humana. Por isso é tão assemelhado a autores como Kafka e Beckett. Então, se, por um lado, Kharms traz traços característicos da cultura russa (a própria busca de uma arte universal, por exemplo) e de seu tempo, por outro, destaca o lado mais trágico e patético do ser humano, chegando ao grotesco. Não por acaso, autores como Heidegger são normalmente citados nos estudos sobre Daniil Kharms.

Kharms lida com questões como o tempo, a morte e a causalidade. Ele e seus amigos da OBERIU (Associação para uma Arte Real), o grupo que fundaram em 1928 em Leningrado (atual Petersburgo), estavam em busca de uma nova forma de interagir com o mundo, de um real que só pode ser desvelado no choque, na colisão, no nonsense, no avesso da lógica corriqueira. No entanto, é claro que, mesmo pensado nesta vertente, digamos, mais atemporal de sua criação, o período histórico também teve relevância. Os desaparecimentos e mortes que Kharms deve ter inúmeras vezes presenciado com a chegada de Stálin e da década de 1930, a vida precária (chegou a passar fome ao lado da segunda esposa, Marina Málitch, que curiosamente acabou na Venezuela) e cada vez mais isolada... isso tudo não poderia deixar de interferir na sua percepção do real e no seu provável processo de enlouquecimento.

 

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