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Tradutor vira autor para falar do Brasil

Para criar 'Deus é Brasileiro', o holandês Harrie Lemmens fez três viagens ao País, onde se encontrou com escritores

Ragael Warner Nogueira, Especial para O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2014 | 02h07

Uma expressão bem nossa - Deus é brasileiro - deu nome a um livro que foi lançado em março, em Amsterdã, pelo ensaísta, escritor e tradutor holandês Harrie Lemmens.

God is een Braziliaan, como diz o título original em neerlandês, saiu com um mês de antecipação pela editora Athenaeum-Polak & Van Gennep, que apostava no interesse crescente que o Brasil vem despertando junto a diferentes audiências europeias.

A decisão de adiantar o lançamento pode ter se dado por razões comerciais: em parte, por conta de todos os rebuliços e ressonâncias internacionais em torno dos preparativos para a Copa; de outra parte, pela sequência de tropeços do atual governo. De uma forma ou de outra, o fato é que o Brasil está no foco.

No entanto, Lemmens se preocupa em adiantar que nada em seu livro reproduz ou contribui para confirmar velhos clichês sobre o Brasil, como a sua natureza ímpar, o povo em permanente estado de alegria, as soluções "criativas" para contornar as adversidades, as mulheres sensualizadas e os famosos jeitinhos.

Ao contrário, o livro foge do lugar comum e sai em busca do que pensam, o que fazem, como vivem e quem são alguns dos intelectuais e escritores brasileiros mais destacados, como João Ubaldo, Verissimo, Carola Saavedra, Marçal Aquino, Alice Ruiz e Michel Laub. "É o Brasil visto sob um viés pessoal, caleidoscópico", diz o autor.

Foi Luis Fernando Verissimo quem, sem querer, acabou inspirando o título adotado para o livro. Um dos editores, durante uma discussão sobre a questão do título, lembrou-se de uma frase repetida por Verissimo durante uma palestra que ele havia apresentado na véspera, em Amsterdã. Por algum motivo, o cronista havia citado a famosa frase: "Deus é brasileiro."

Antes mesmo de colocar os pés no Brasil, Lemmens já interagia com alguns autores nacionais na condição de tradutor do português para o neerlandês. Quase cinco anos se passaram entre a sua primeira viagem, em 2007, e as duas seguintes, uma, em dezembro de 2010, a outra, em abril de 2011.

Em 2007, ele e a mulher, Ana Carvalho, foram convidados por João Ubaldo para passar alguns dias em Salvador, Ilhéus e, depois, em Itaparica, onde, por coincidência, ele comemoraria o seu aniversário.

Assim, Lemmens pôde conhecer em plano de realidade o Brasil pelo qual caminhava virtualmente através da escrita de João Ubaldo e de outros escritores que traduziu. Mas as suas ambições eram modestas. Primeiro, tentar compreender este país luminoso e indolente, conforme se mostrava na Bahia. Num passo seguinte, a meta seria escrever artigos sobre todas essas experiências e as longas conversas com João Ubaldo. A ideia de um livro era, então, uma hipótese remota.

Partiu da editora da Athenaeum a sugestão para que ele não se limitasse aos artigos jornalísticos, mas escrevesse um livro sobre suas incursões por cidades brasileiras e os seus encontros com escritores. Isso o levou, então, a organizar as viagens subsequentes: São Paulo, Curitiba, Porto Alegre, Rio, Belo Horizonte e Recife.

A escolha do Recife como a última escala desse périplo não fora casual: ele quis começar e concluir o seu relato nesta cidade porque foi lá que os holandeses chegaram, em 1630, construíram a cidade que conhecemos hoje e de onde partiram, em 1654, postos para correr pelos portugueses.

"Visitamos oito cidades onde nos encontramos com vários escritores. Falaram-me de seus livros, sobre literatura, sobre as suas cidades, sobre o Brasil. Sobre um passado recente e sobre um passado distante. Perambulamos por essas oito cidades tendo como cicerones escritores já desaparecidos, cujas palavras ecoavam em nomes de ruas e de lugares por onde passamos. Ouvimos histórias por toda a parte. Os olhos dos viajantes descobrem-nas em imagens de casas, de ruas, de prédios. Os seus ouvidos as escutam da boca de amigos, conhecidos e pessoas da rua. Isso se entende, a língua em que elas são contadas. Quando as quer ouvir, quando as quer ver".

Para Lemmens, o livro é uma recordação das viagens que fez ao Brasil, algo que guarda para si como uma descoberta pessoal. E ele reforça o seu roteiro: "Salvador, a cidade que respira África, Ilhéus, o centro do cacau e da elegância francesa, São Paulo, a metrópole do dinheiro e do progresso, Curitiba, a cidade verde e moldável, Porto Alegre, onde o Brasil se casa com a Argentina, Belo Horizonte, macambúzia e tradicionalista, e Recife, a cidade onde paira ainda o espírito de Maurício de Nassau."

Oito cidades, oito vozes, oito rostos que guardam algo de comum entre si: todas elas são o reflexo desse país grande, grandioso, que é o Brasil.

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