Tradutor Rubens Figueiredo explica seu trabalho de 3 anos

MARIA FERNANDA RODRIGUES

O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2011 | 03h08

Uma desorientação juvenil típica de quem está prestes a escolher uma profissão e uma certa rebeldia aproximaram Rubens Figueiredo do idioma russo. Era 1973, o Brasil vivia sob a ditadura militar e Figueiredo, então com 17 anos, estava na secretaria da Universidade Federal do Rio de Janeiro procurando um curso que combinasse com ele quando descobriu o Departamento de Letras Orientais e Eslavas da instituição. Achou "interessante e diferente". Lembrou que já tinha lido alguns autores russos e que aproximar-se da então URSS tinha, naquele momento, um toque de contestação. Pronto. Num rompante, decidiu que estudaria aquele idioma.

Fez o curso, emendou uma pós-graduação para depois abandonar livros e dicionários durante 15 ou 16 anos num armário porque precisava trabalhar e não poderia continuar estudando algo "sem aplicação profissional". Mais de 30 anos depois, o carioca Rubens Figueiredo é hoje um premiado ficcionista - e um dos mais requisitados tradutores do país, em especial na língua russa.

Figueiredo diz que o reencontro com o idioma se deveu, em parte, ao poeta e amigo Carlito Azevedo, que soube por acaso que ele falava russo e pediu que traduzisse um texto para a revista literária que editava. O tradutor resgatou seu material de estudo e sentiu raiva: "Vi minha letrinha miúda de garoto e aquilo me chocou. Pensei comigo: 'Estudei tudo isso e não vou aproveitar?'" Depois veio o contato com Augusto Massi, que seria seu editor na Cosac Naify até pouco tempo e lhe encomendou traduções. Desde então, Rubens Figueiredo já verteu para o português 11 títulos publicados pela editora - todos diretamente do russo, além de outros mais de 70, de outras línguas e para editoras diversas.

A lista começou com Antón Chekhov e seu O Assassinato e Outras Histórias; depois vieram Nicolai Gógol, Maksim Górki, Ivan Turguêniev e Serguéi Tretiakóv. No meio dessas empreitadas, ele se embrenhou pela obra de Liev Tolstói, hoje seu escritor preferido, ao lado de Graciliano Ramoso. Ganhou fama ao traduzir Anna Kariênina e um prêmio da Fundação Biblioteca Nacional por seu trabalho em Ressurreição. Faltava vencer o desafio maior: Guerra e Paz, que sai num ano em que o escritor Rubens Figueiredo conquistou dois dos mais importantes prêmios literários com seu romance Passageiro do Fim do Dia - o São Paulo de Literatura e o Portugal Telecom.

Foram três anos de pesquisa, de bagunça na mesa com três edições de Guerra e Paz em russo disputando espaço com outras em português, inglês e francês, e de árduo trabalho até que ele colocasse, no começo de 2010, o ponto final na edição que a Cosac Naify manda hoje para as livrarias. Se em algum momento enjoou do livro? "Enjooei nada, queria era começar tudo de novo", assegura.

O que faz essa tradução diferente das outras já publicadas no Brasil e no exterior é que Figueiredo tentou preservar a estrutura original do texto, sem incorrer nos erros dos outros tradutores que, em nome de uma estética mais aceita na Europa, cortavam palavras e modificavam o estilo.

"Minha preocupação era preservar os traços linguísticos importantes do autor e isso significa que eu não pretendia silenciar as diferenças sob o argumento de que aquilo não estava bem escrito ou de que aquele não era o padrão de elegância que vigora hoje em dia. Eu respeitei o que parecia diferente e estranho", conta o tradutor.

De acordo com Figueiredo, Tolstói tinha estratégias para alcançar uma coesão muito particular e uma delas era a repetição de palavras. Em seis linhas, podia repetir seis vezes a mesma palavra e isso não era aleatório. "Ele chegou a usar 20 vezes o radical 'contar' em uma página. E por que repete? Nessa hora uma pessoa está narrando um episódio de uma batalha para outra. Enquanto conta, está modificando e conduzindo aquele relato para uma direção, produzindo efeitos e mudando sutilmente o que aconteceu. E toda discussão de Tolstói a respeito dos historiadores é isso: o que há de verdade no que se conta?", explica.

O ficcionista russo tinha também um gosto particular por frases muito longas e uma arquitetura retórica elaborada, ressalta o tradutor, o que não chega a atrapalha a leitura. "Você vai impelido pela fluência do raciocínio e não percebe isso." Para Figueiredo, outro traço forte em Tolstói é a abundância de paralelismos e a apresentação brusca de raciocínios e argumentos. "Ele não tenta ser elegante ou delicado."

Algumas dessas características eram compartilhadas por outros autores conterrâneos. "Quanto mais o tradutor compreender o contexto em que determinado escritor compôs sua obra e o que estava em jogo no livro, melhor será seu trabalho de transposição do conteúdo do livro para o momento atual. É preciso traduzir o livro, mas não recriá-lo para o seu tempo", argumenta.

Mesmo com o estilo original de Tolstói preservado, Figueiredo acredita que não será difícil para os brasileiros lerem Guerra e Paz, escrito há mais de um século. Isso porque "os personagens são pessoas comuns com seus conflitos e suas ambivalências", afirma. Ele destaca também a atualidade do tema: a desigualdade entre os países que se julgam superiores, que têm uma coisa extraordinária a oferecer e podem fazer uma guerra por isso. Ler uma obra traduzida tem também suas vantagens. Figueiredo diz que é curioso o fato de Tolstói não ser mais acessível ao leitor russo por sua linguagem antiga, mas totalmente compreensível para um leitor de outro país.

Quando Rubens Figueiredo escolheu estudar russo não imaginava que um dia as editoras investiriam dinheiro e tempo em traduções mais complicadas que as habituais a partir do inglês, francês e espanhol. Esse movimento, na verdade, existe há pouco mais de uma década. "Tudo que nos chega é filtrado pelo inglês. Estamos isolados e ilhados por essa língua. Procurar um contato direto com outras culturas e com outras tradições é uma experiência de autonomia."

Figueiredo acredita que os livros mereçam ter várias traduções concomitantes e novas traduções 20 ou 30 anos depois do lançamento das versões anteriores. "A língua e os critérios de tradução mudam. Em tradução não existe uma última palavra."

Antes de ser tradutor - sua primeira tradução saiu em 1991, Rubens Figueiredo já era escritor. Ele lançou O Mistério da Samambaia Bailarina em 1986. Em 1998, ganhou o Jabuti pelo livro de contos As Palavras Secretas e em 2002, pelo romance Barco a Vapor. Quanto mais traduções se comprometia a fazer, menos tempo sobrava para escrever seus próprios livros. Mas o trabalho de tradutor e de escritor não deixam de ser complementares, explica Figueiredo, que se diz influenciado pelos bons e maus autores que traduz: "Pouquíssimos têm uma contribuição positiva, que mostram coisas que merecem ser feitas e que vale a pena tentar fazer. Este é o caso do Tolstói e Górki, com suas maneiras diferente de se relacionar com a literatura e relacionar a literatura com a sociedade."

Mesmo sendo tradutor requisitado e escritor premiado, Rubens Figueiredo, hoje com 55 anos, nunca abandonou seu primeiro ofício, o de professor. E é na sala de aula que mais se diverte, garante. Foi para pegar mais aulas e complementar o orçamento que ele abandonou o russo por vários anos. Hoje consegue conciliar duas das três paixões. Divide o mês entre traduções de russo e de inglês e dá aulas de português à noite em uma escola estadual do Rio de Janeiro. Só para escrever é que não encontra muito tempo. Levou quatro anos para terminar o último livro e alerta que não deve aparecer nada novo nos próximos anos. Afinal, justifica, só escreve nas horas vagas e quando tem algo a dizer, "o que não é o caso agora". Isso, no entanto, não chega a ser um problema. "Estou feliz assim", diz ele, em bom português.

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