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Tradutor alemão Berthold Zilly prepara 'Grande Sertão: Veredas'

Instalado em Florianópolis, como professor visitante da UFSC, o tradutor alemão Berthold Zilly discute o seu ofício e sua nova tarefa

JOSÉ GERALDO COUTO,

21 de janeiro de 2012 | 03h00

Numa casa entre árvores nativas, com vista para a praia da Barra da Lagoa, em Florianópolis, o alemão Berthold Zilly dá início a sua tarefa mais ambiciosa: verter para o seu idioma uma das obras mais complexas da língua portuguesa, Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa (1908-1967).

Não é a primeira "missão impossível" que esse professor de literatura e tradutor de 66 anos abraça com entusiasmo e destemor. Ele já verteu para o alemão obras como Os Sertões, de Euclides da Cunha, Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, Memorial de Aires, de Machado de Assis, Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, Confissão de Lucio, do português Mario de Sá-Carneiro, e Civilización y Barbarie, do argentino Domingo Sarmiento.

A nova tradução do Grande Sertão foi encomendada pela editora Hansel, de Munique, e Zilly hesitou muito antes de topar a empreitada, que deverá lhe tomar ao menos três anos de dedicação quase exclusiva. Docente aposentado da Universidade Livre de Berlim, ele está em Florianópolis com sua companheira argentina, Claudia Silveyra D’Avila, como professor visitante da Universidade Federal de Santa Catarina.

Nesta conversa em sua casa, Zilly falou com exclusividade ao Sabático, num português fluente e quase sem sotaque, sobre sua ligação intelectual e afetiva com o Brasil, comentou as dificuldades da tradução de autores brasileiros e explicou por que a célebre versão alemã existente do épico de Guimarães Rosa, feita por Curt Meyer-Clason, é insuficiente.

De onde vem sua ligação com o Brasil e, em especial, com o sertão?

Vem do meu tempo de estudante, nos anos 60, e por duas vias. Primeiro, o interesse político e cultural que nós, jovens de esquerda, tínhamos pelo chamado Terceiro Mundo. Nosso impulso de solidariedade aos povos oprimidos. O segundo motivo foi sentimental. Eu tinha uma namorada paraibana e frequentava na Alemanha um grupo de brasileiros. Vi alguns filmes que um professor brasileiro mostrou. Um que me impressionou muito foi Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos. Aí comecei a ler sobre o Nordeste. Meu interesse pelo sertão vem daí. Em 66, comecei a aprender português. Com o grupo de brasileiros e minha namorada, fomos para Portugal e comecei a estudar português.

E suas temporadas no Brasil, como foram?

Minha primeira vinda ao Brasil foi em 1968, quando estudei um semestre na Letras da USP. Tive aulas com Antonio Candido, José Aderaldo Castelo, José Carlos Garbuglio. Passei uma noite preso quando o Exército invadiu o Conjunto Residencial da USP (Crusp), onde eu estava morando. Nessa primeira temporada visitei pela primeira vez o sertão. Depois, na década de 70, passei dois anos em Fortaleza como professor de língua e literatura alemã, e aí fui várias vezes ao sertão. Fiquei muito impressionado com a paisagem, com a história. Havia um pouco de romantismo também: o cangaço, os movimentos messiânicos, os filmes de Glauber Rocha. Esse Brasil tão diferente das grandes cidades sempre me fascinou. Embora eu não seja místico, e me sinta mais um homem da Aufklärung (esclarecimento, iluminismo), há certos lugares, como Monte Santo, na Bahia, em que você se sente perto de si mesmo, perto das questões primordiais da vida, começa a se perguntar se existe Deus. Quando estive em Monte Santo pela primeira vez pensei: "Eu tenho que traduzir Os Sertões".

Foi sua primeira tradução de um livro brasileiro, que lhe valeu o principal prêmio de tradução alemão, o Christoph-Martin-Wieland, em 1995. Fale um pouco sobre esse trabalho.

Meu trabalho como tradutor começou relativamente tarde. Eu era professor de literatura. O projeto de traduzir Os Sertões é de 1984, 85. Comecei a traduzi-lo porque o livro me fascinou pela história, pelo conteúdo, mas também pela maneira como essa história é contada e pela personalidade do autor. Euclides é um intelectual com quem me identifiquei, um homem profundamente honesto que quer pesquisar os aspectos, as causas, as consequências de uma grande injustiça, e que quer tornar pública essa injustiça, ao mesmo tempo em que quer se exteriorizar esteticamente, moralmente. Eu não entendia esse livro. Ele tem um duplo efeito: repele e atrai o leitor. Pensei: o que vou fazer para entender esse livro? Tenho que traduzi-lo. Traduzi por iniciativa própria, para mim mesmo. Depois fui de editora em editora, quase mendigando para que o publicassem.

O que foi mais difícil nessa tradução?

O mais difícil acho que é a sintaxe. A sintaxe é danada. É uma oralidade extremamente estilizada, à qual eu não estava acostumado. A gente não aprende a escrever nesse estilo, nem aqui, muito menos na Alemanha. O estilo pomposo, meio barroco, grandioso, patético. Esse estilo caiu em desuso e até em desprezo com a Segunda Guerra Mundial. Agora, as outras dificuldades - as palavras raras, os termos técnicos, arcaicos -, isso dá para resolver por meio da pesquisa e da erudição. Até certo ponto tive que reconquistar os conhecimentos e a cultura do próprio Euclides de Cunha. Em parte eu já tinha isso, porque a cultura dele era em grande parte europeia. Conhecia bem a história da Europa, a história de Roma, mitologia grega, a Bíblia. Isso eu conhecia mais ou menos, e o que não sabia eu pesquisei. Pude naturalmente aproveitar os trabalhos feitos pelos pesquisadores brasileiros que estudaram Euclides da Cunha. Li ensaios do próprio Antonio Candido, da Walnice Nogueira Galvão e outros. Tinha contato com o Roberto Ventura (biógrafo de Euclides, que morreu em 2002).

A tradução de Lavoura Arcaica deve ter implicado outro tipo de dificuldade.

Acho que foi o livro mais difícil que traduzi. Porque as dificuldades de Os Sertões dá para resolver com paciência, com muita pesquisa, com muita reflexão. Lavoura Arcaica é um texto que não precisa de muita pesquisa em termos de léxico. Tem talvez 20 palavras, ou menos, que eu não conhecia. Aliás, o próprio Raduan Nassar me ajudou a resolver. Estive na fazenda dele, andamos de trator. As dificuldades eram, digamos, na poeticidade do estilo dele. Lavoura é um livro puramente literário. Não precisa fazer muita pesquisa. O problema é a poeticidade, o poder de sugestão, a sonoridade, o ritmo, a polissemia tanto na dimensão lexical como na dimensão sintática. Quando ele usa um aposto, um gerúndio, um infinitivo, você não sabe exatamente em que tempo isso se passa, quem é o sujeito. Fica tudo no ar. Você tem a impressão de algo impalpável. É um texto que mobiliza muitos pensamentos e muitas emoções e que é bonito ritmicamente. As imagens, os cheiros, os sons que são evocados, e principalmente as emoções. Primeiro você tem que se dar conta de toda essa riqueza estética, emocional, sensorial, sensual, e por outro lado tem que se perguntar: bom, toda essa riqueza de significados, mas mais de conotações do que de denotações, mais de alusões do que de significados claramente definidos, como eu vou reconfigurar isso em alemão? Levei muito tempo para fazer isso. O texto em si eu traduzi em três semanas. Mas levei um ano e meio, quase dois anos, retrabalhando o que havia feito com a prosa de Raduan.

No Grande Sertão você enfrentará dificuldades semelhantes às de Os Sertões somadas às de Lavoura Arcaica.

Sim, há a necessidade do trabalho de pesquisa e erudição e também a de respeitar a poesia do original. E há um terceiro problema, pois Rosa é um autor que, tanto em termos lexicais como em termos sintáticos, é mais inovador que os dois outros autores. Há os inúmeros neologismos, às vezes contrações de duas ou três palavras, ou lexemas dessas palavras, formando novas. Ou ele toma palavras do dialeto do sertão, ou cria artificialmente palavras dialetais que parecem palavras do sertanejo, mas que na verdade são invenções dele, Rosa. Às vezes recorrendo a outras línguas, inclusive. Há também um dos problemas principais do Nassar que é a relação entre os elementos do período e também entre os elementos dentro da oração, que nem sempre é clara. Ele usa, digamos, um verbo transitivo de modo intransitivo, e vice-versa. É preciso intuir muita coisa e também estudar um pouco o linguajar sertanejo e ler a literatura de apoio também, e consultar especialistas. O problema lexical, até certo ponto, é solucionável, porque há dicionários que explicam o vocabulário de Guimarães Rosa. Mas a sintaxe é mais complicada ainda. Não tem comentário explicando a sintaxe.

O autor da tradução existente, Curt Meyer-Clason, pôde trocar ideias e tirar dúvidas com o próprio Guimarães Rosa sobre o livro. Por que essa tradução é insuficiente?

É uma boa tradução, que dá conta da trama, do caráter dos personagens, mas aplaina boa parte das dificuldades da linguagem rosiana para aproximá-la do leitor alemão. Por exemplo, os contrastes entre, por um lado, os períodos longuíssimos, repletos de orações subordinadas e apostos, e por outro os períodos compostos por uma única palavra. Logo na primeira página do livro, há a frase isolada: "Mataram". Referia-se ao bezerro disforme que podia ser o demônio e que os cabras da fazenda de Riobaldo mataram. Meyer-Clason verte esse lacônico "mataram" por "Sie habens auf der Stelle totgeschlagen" (literalmente: "Eles o mataram a pancadas imediatamente"). O laconismo extremo do original é impossível de se reconfigurar em alemão, pois precisamos de um sujeito para um verbo, precisamos de um objeto no caso de um verbo transitivo, e além disso, no pretérito perfeito, em geral precisamos de um verbo auxiliar. Mas em vez de limitar o número de palavras, Meyer-Clason acrescenta desnecessariamente um advérbio (auf der Stelle, imediatamente). Além disso, há o problema semântico: indica-se, diferentemente do original, a maneira de matar o bezerro, e ainda por cima de modo equivocado, pois os cabras provavelmente mataram o animal a tiros. Provavelmente vou traduzi-la como "Habens getötet"; se a gente traduzisse isso, palavra por palavra, seria mais ou menos "Têm-no matado", Esse tipo de equívoco é frequente na tradução de Meyer-Clason, que é muito boa em outros aspectos. Penso que é natural que a tradução de uma obra desse quilate seja feita em duas etapas. A dele cumpriu seu papel desbravador. Agora tenho que ir além.

JOSÉ GERALDO COUTO É JORNALISTA, CRÍTICO DE CINEMA E TRADUTOR

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