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Tradução do alexandrino Konstantinos Kaváfis recoloca autor em cena

Trabalho feito por Haroldo de Campos retoma discussão sobre poeta grego

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S. Paulo,

31 de agosto de 2012 | 19h30

A primeira tradução publicada no Brasil do principal nome da poesia grega contemporânea, Konstantinos Kaváfis (1863-1933), foi feita há 50 anos no Suplemento Literário do Estado pelo poeta, ensaísta e dramaturgo português Jorge de Sena (1919-1978). Sua tradução do poema À Espera dos Bárbaros - veja os primeiros versos nesta página - antecedeu outras duas, as dos poetas José Paulo Paes (1926-1998) e Haroldo de Campos (1929-2003). A do último integra o livro A Poesia de Konstantinos Kaváfis (Cosac Naify), que chega às livrarias na terça-feira e foi organizado por outro poeta e tradutor do mestre alexandrino, Trajano Vieira. São 17 poemas "transcriados", como o concretista gostava de se referir às suas traduções - entre eles, alguns dos mais conhecidos do cânon de Kaváfis (como Ítaca).

Rigoroso, Konstantinos Kaváfis nunca reuniu em livro os 154 poemas desse cânon. Trabalhou neles a vida toda, reelaborando-os e publicando alguns em folhas soltas ou revistas literárias. Os poemas só seriam publicados em 1935, dois anos após sua morte. Traduzidos para o inglês graças ao escritor E.M. Foster (Passagem para a Índia), eles seriam vertidos para o francês por Marguerite Yourcenar (Memórias de Adriano) - e foi essa versão que José Paulo Paes leu, em 1964, e adotou como referência no livro Poemas (José Olympio). Haroldo de Campos preferiu recorrer à edição do professor grego Giorgios Savídis, que comprou em Atenas em 1975.

Nos últimos anos de sua vida, o poeta concreto vinha trabalhando na tradução do poeta alexandrino, conta Trajano Vieira. Sem conhecimento do grego moderno, foi por meio do grego clássico, das traduções disponíveis em português (entre elas as de Jorge de Sena e a do psicanalista e crítico Theon Spanudis, de 1978, a única feita a partir do original) que ele restituiu "poundianamente" o idioma poético de Kaváfis. Sua opção diverge das demais traduções: ele força arbitrariamente o texto poético do alexandrino para extrair dele a melopeia e "fingir" a sonoridade grega desse poeta cosmopolita, nascido em Alexandria, educado em Londres e helênico por afinidade com o mundo clássico.

Se José Paulo Paes, mesmo orientado pela tradução de Marguerite Yourcenar - em prosa e pouco fiel aos valores formais de Kaváfis -, respeitou o esquema métrico e estrófico do original, Haroldo de Campos seguiu em direção oposta: as rimas e as simetrias do alexandrino são repensadas para se adaptar ao espaço poético criado pelo concreto. E Campos traduz, por exemplo, "nómos" por norma, e não por lei, em À Espera dos Bárbaros, além de usar com liberdade as transliterações ("autokrátor" vira "autocrátor", e não imperador). O que Pound definia como logopeia ("a dança do intelecto entre as palavras") encontra em Haroldo de Campos seu mais anárquico dançarino, a ponto de enxertar Carlos Drummond de Andrade (homofóbico) num poema de Kaváfis, homossexual nada discreto - e a cinebiografia assinada em 1996 por Yannis Smaragdis, infelizmente, só se interessa por esse lado do poeta.

Kaváfis sentia-se incomodado por essa condição. No poema Muralha (ausente do livro de Haroldo, mas traduzido por José Paulo Paes como Muro), ele se queixa da discriminação sofrida por seus pares, denunciando a homofobia como razão de ser um proscrito. Decadentista, foi comparado a Oscar Wilde, mas o fato é que, ao contrário do escritor irlandês, não se dedicou a criticar a sociedade da qual fez parte. Filho da alta burguesia alexandrina - o pai era comerciante de algodão e trigo -, Kaváfis foi um conservador, mesmo quando o patriarca morreu e um dos irmãos afundou a família em dívidas, obrigando o poeta a virar burocrata no Departamento de Irrigação.

A despeito de seu conservadorismo político, Kaváfis foi ousado, ao unir erudição e cultura popular em seus poemas, que remontam subjetivamente a história da Grécia clássica. O poeta desprezava sua época por considerá-la indigna da mitologia helênica - ainda que esta fosse a fantasia de alguém com nostalgia do mundo bárbaro, em tudo oposto ao pragmatismo moderno. Kaváfis era assim, uma contradição ambulante, que ora fazia o elogio do bom senso, do controle dos sentidos, para segundos depois cair no fundo poço dos prazeres sensuais. Entre o ascetismo e o hedonismo, o poeta ficava com os dois. Era um Jano com a cabeça sintonizada na tradição ortodoxa (ele adorava os ritos da igreja, mas só a pompa) e o resto do corpo na desenfreada sensualidade pagã.

Haroldo de Campos escreveu um poema para Kaváfis (O Poeta Alexandrino, que abre o livro) em que o vê, já velho, olhando para o passado e voltando a uma Ítaca muito particular, repleta de corpos bronzeados. Campos, à beira da morte, define a si mesmo como um velho mirando outro velho numa taverna um tanto escura onde se bebe absinto entre narguilés e prostitutas (os). De fato, como observou o poeta e ensaísta uruguaio Víctor Sosa, do histórico ao privado, há apenas um passo que leva ao erótico em Kaváfis. Não podendo reviver o passado, o mundo arcaico, ele rememora o prazer sensual a partir do exílio da escritura, recebendo a tradição helênica pela reinterpretação europeia, o que explicaria sua ambiguidade e seu filopaganismo romântico.

"Neoclássico seria uma definição imprecisa para ele, pois Kaváfis valoriza a perfeição plástica de um personagem para logo em seguida submetê-lo a um processo de corrosão e decadência", conclui Trajano Vieira.

POEMAS DE KONSTANTINOS KAVÁFIS

Tradução: Haroldo de Campos

Organização: Trajano Vieira

Editora: Cosac Naify (64 págs., R$ 45; nas livrarias a partir de terça-feira)

 

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