Tradução

Eu estava assistindo ao programa do Jimmy Fallon no GNT e uma coisa muito curiosa aconteceu. O comediante Ricky Gervais estava sendo entrevistado e, em dado momento, ele menciona sua série dizendo que pode ser vista no Netflix. Só que na legenda, que traduzia para o português o que ele estava dizendo, em vez de “Netflix” mostrou “sistema de streaming”. Achei estranho. Logo em seguida, ele diz que assiste a vídeos no YouTube e na legenda, em vez de YouTube, apareceu escrito “internet”. E quando ele falou da sua série na HBO apareceu “canal a cabo da TV americana”.

Fábio Porchat, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2016 | 02h00

Pera aí! Que história é essa? O GNT não permite que se fale determinadas palavras em seu canal, é isso? Quer dizer, a emissora americana NBC permite que Ricky Gervais fale o que ele bem entender, mas o canal GNT censura? O que tá acontecendo? Que a legenda mude para explicar ao público algum termo específico, que apenas americanos entenderiam, é uma coisa, outra é modificar a entrevista. YouTube é bem diferente de internet. É que o pensamento de muitas emissoras brasileiras é tão tacanho que elas preferem boicotar informações a supostamente “divulgar a concorrência”. Na cabeça de algumas, traduzir como foi dito seria fazer propaganda. Realmente, o YouTube precisa muito dessa força sua, GNT. Esse é um pensamento muito antigo aqui no Brasil, a ideia de que só existe a sua emissora e não podemos lembrar aos espectadores que existem outros programas em outros lugares. Agindo dessa forma, o GNT está sendo desonesto com os seus telespectadores. Ainda mais sendo uma entrevista, ou seja, aquela é a opinião de alguém. Ele não falou o que o GNT queria que tivesse falado. Não permitir que Ricky Gervais diga o que ele realmente disse é uma censura muito grave.

Estamos a um passo de começarem a mudar inclusive algumas opiniões. Daqui a pouco, os entrevistados do Jimmy Fallon vão ter que obedecer às vontades do GNT. Talvez devêssemos ligar para o próximo convidado, o Will Smith, e pedir pra ele não tocar no assunto racismo, porque o GNT não queria tocar no assunto nesse momento. Quem sabe a próxima legendagem da entrevista já não é direto uma letra de música da Galinha Pintadinha?

Uma das coisas mais louváveis dos americanos é como eles lidam com a liberdade de expressão. Lá eles podem falar de tudo e de todos, com humor ou sem e em qualquer veículo. Aqui não. Aqui, na televisão principalmente, não se pode falar de determinadas marcas, emissoras, nem de programas.

Pena um canal tão bom como o GNT ainda ter uma mentalidade tão ultrapassada. Mas acho bom acordar pra vida, porque a situação já tá mais pro lado do “sistema de streaming” e da “internet” do que pro da TV a cabo.

Mais conteúdo sobre:
Fábio Porchat

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.