Tradições abstratas de duas culturas

Desenhar no Espaço reúne destaques da produção brasileira e venezuelana

Maria Hirszman ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2010 | 00h00

A exposição Desenhar no Espaço, que a Pinacoteca do Estado exibe a partir de hoje, se debruça sobre exemplos preciosos da produção construtiva brasileira e venezuelana, com 80 obras pertencentes à Coleção Patrícia Phelps de Cisneros. Além da visibilidade dada a um seleto conjunto de obras da autoria de mestres como Jesús Soto, Gego, Willys de Castro e Helio Oiticica, a mostra procura sublinhar os encontros e desencontros, a base comum e as questões identitárias mais específicas de cada uma dessas produções.

Trata-se, segundo o curador Ariel Jimenez, de duas tradições abstratas de matriz comum, que têm como motor a necessidade de passar do plano pictórico ao espaço; que possuem referências históricas idênticas - com a presença fundamental de modelos como Mondrian, Malevich e da Bauhaus -; e que compartilham importantes pontos de contato cultural. Mas que assumem ao mesmo tempo características bastante particulares nessa busca de transcendência dos limites da pintura e da escultura.

É exatamente da iluminação dessas diferentes "personalidades", das coincidências e especificidades entre brasileiros e venezuelanos, que é feita a exposição, organizada em torno de três núcleos centrais. A mostra rendeu ainda - como importante ponto de apoio - um alentado catálogo.

No primeiro dos blocos expositivos estão reunidos trabalhos dos anos 1950 e início dos 1960 de autoria de Jesús Soto e Lygia Clark. Além de marcar as origens desse movimento cada vez mais radical de superação dos marcos tradicionais da arte, esse núcleo intitulado O Corpo da Obra lança as bases da principal tese defendida por Jimenez, de que os neoconcretistas brasileiros passam ao espaço pensando a obra de forma corpórea, na Venezuela esse salto se dá por meio da transparência, daquilo que ele define como "fenômenos luminico-ópticos". A musicalidade, o ritmo, a luminosidade trabalhadas por Soto em seus trabalhos estabelecem um interessante contraponto ao esforço de Lygia de explorar e esfacelar a relação entre a pintura e seu suporte.

Armadilha de luz. No segundo bloco, que reúne o maior número de artistas e obras da mostra, a questão da cor torna-se o vetor principal. Novamente, ela é corpórea, inseparável da matéria, na obra de Helio Oiticica, Willys de Castro e Hercules Barsotti, enquanto se torna uma atmosfera de cor, uma "armadilha de luz" nos projetos de Alejandro Otero e Carlos Cruz-Diez.

Por fim, a mostra - que já foi vista no Museu Iberê Camargo, em Porto Alegre - promove um comovente encontro entre a obra de Gego e Mira Schendel. Coincidentemente, ambas nasceram na Europa, eram judias e chegaram à América Latina fugindo do horror na Europa, "daquele mundo que para nós era legitimante", destaca Jimenez. É curioso destacar que ambas jamais fizeram parte dos movimentos a que hoje são aproximadas. "Mira deu uma sensualidade à matéria que a distancia dos concretos paulistas; me parece ter sido a única no Brasil a passar ao espaço pela transparência", explica o curador, destacando, por outro lado, que os desenhos espaciais de Gego tampouco se alinham com o caráter industrial, serial, que tanto interessava aos cinéticos.

DESENHAR NO ESPAÇO: ARTISTAS ABSTRATOS DO BRASIL E VENEZUELA

Pinacoteca. Pça. da Luz, 2, 3324-1000. 10/18h (fecha 2ª). 11h. R$ 6 (sáb., grátis). Até 30/1.

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