Tradição que vai até o pop

Versos de Someck trazem ocosmopolitismo de Tel-Aviv

Moacir Amâncio, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2012 | 18h00

A poesia de Ronny Someck vem dos anos 70, da contracultura israelense, quando a cartilha ideológica que constrangia os escritores ficava cada vez mais distante. O coletivismo qibutsiano foi trocado pela subjetividade, o que iria se exacerbar na obra de poetas nutridos ao som do rock. Diante disso já não há motivo para ninguém se surpreender com os ícones da cultura pop que ponteiam sua obra poética, do Tarzã Johnny Weissmuller até Marilyn Monroe e Elvis. Na salada cultural entram também ingredientes locais, israelenses e médio-orientais, como as cantoras Fairuz (libanesa) e Um Kulssum (egípcia). Someck, conhecido em Israel como um poeta de Tel-Aviv, fala da cena cotidiana de seu país, mas também do passado familiar, no Iraque, e o ambiente da cultura e língua árabes. Um tanto vertiginoso, contudo é nessa vertigem contemporânea que o poeta se situa - e sem perder o humor.

No caso da literatura israelense a questão da identidade coloca-se de maneira crucial. No início havia a intenção de criar um novo judeu em Israel, diferente dos judeus que até então tinham vivido em dezenas de países, com suas especificidades. Era uma negação disso, um projeto homogeneizante, todos os judeus lá seriam iguais, o que, porém, não confere com a realidade. E é essa realidade emergente na literatura posterior à criação do Estado de Israel em 1948, quando as tensões latentes subiram à tona e as diferenças cobravam voz ativa. Judeus marroquinos, tunisinos, iemenitas, ou iraquianos como Someck mudavam os discursos na medida em que a sociedade israelense se mostrava matizada, inclusive pela presença da minoria árabe cristã e muçulmana que faz parte dela e vem produzindo autores hebraicos, como o notável Anton Shammas.

Nesse sentido, a poesia de Someck, ao captar as cambiantes tonalidades culturais do país, revela-se antes de mais nada israelense, como uma localidade tão única quanto vária no planeta. É Ocidente, Oriente e África ao mesmo tempo. Tel-Aviv tornou-se conhecida como um exemplo de cosmopolitismo, embora Jerusalém não deixe de ser cosmopolita ao seu modo tradicionalizante. Da relação entre dezenas de grupos surgem os perfis israelenses na medida dos habitantes do país. 

O Poema Patriótico, de sua autoria, mostra-se expressão pessoal e documento de uma época, quando a identidade deixa de perseguir modelos e se interroga sobre as contradições que a expõem nos planos do relativismo. Em linguagem simples e direta, o poema resume a situação de eterna passagem de um eu para outros tantos eus, um prisma filtrando a própria decomposição permanente. O eu lírico se apresenta como “iraquiano”, casado com uma romena - a filha deles seria o “ladrão de Bagdá”, o cunhado é russo e o amigo, marroquino -, uma só família humana. Em outro poema, Hauaja Bialik (Senhor, turco incorporado pelo árabe, Bialik é o poeta nacional de Israel), uma garota árabe entoa uma canção escrita por Bialik, pois como cidadã israelense aprendeu hebraico na escola e é nessa língua que ela vê espelhada sua frustração amorosa. Há um muezim a convocar para a oração, mas a voz longínqua pode se perder - a tradição, qualquer tradição, que resiste-não resiste. Algo novo acontece. Talvez distópico, talvez utópico, segundo o ponto de vista.

MOACIR AMÂNCIO É PROFESSOR DE LITERATURA HEBRAICA NA USP E AUTOR DE ATA (POEMAS,  RECORD), ENTRE OUTROS TÍTULOS 

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