''Tradição pode ser importante, mas também irrelevante''

Christian Scott não amacia, toca em alto volume. O New York Times até achou algum parentesco com o "rock de arena", quando ele tocou no Blue Note, em 2007. A caminho do Brasil, falou com exclusividade ao Estado.

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2010 | 00h00

O que você está achando de todo essa badalação em torno de você? Isso o preocupa?

Bem, não dou muita importância a esse tipo de coisa. Tem quem dá muita bola para como a DownBeat e a Ebony expressam suas ideias sobre meu trabalho. Não sei realmente o que expressam esses sentimentos, sei apenas qual é a missão que me fez vir até aqui. O hype é engraçado para mim, as pessoas às vezes só escutam falar do hype e se movem orientadas pelo que a imprensa teria dito, e que não compreendem inteiramente.

Como é o trabalho de ator e também como autor de trilhas para filmes como Leatherheads e Rachel Getting Married?

A vida muda, e nos desafia constantemente a nos adaptarmos. Senti que poderia ser interessante fazer um filme, e fui para Berklee estudar trilhas sonoras. Esse é meu background, estudei isso na universidade. Sinto também que atuar pode se configurar como uma espécie de reserva de energia artística, e acabou que andei tentado algo nesse campo também.

Como Armstrong, Wynton Marsalis, Terence Blanchard e Irvin Mayfield, você é trompetista e nasceu em New Orleans. Entre esses nomes célebres, qual você acredita que está mais perto de sua abordagem?

Sou bem diferente desses músicos. Todos somos de New Orleans e todos tocamos trompete, mas sinto que é seguro dizer que somos muito diferentes. Então, sou obrigado a deixar o desafio de como estabelecer essa diferença para você.

Em New Orleans, os grandões da cena musical, mais que músicos, são educadores, professores, gente envolvida com o desenvolvimento artístico das novas gerações, como Mayfield, Ellis Marsalis e Allen Toussaint. Você tem intenção de dedicar parte de sua carreira à educação ou a projetos sociais?

Alguns anos atrás ajudei a fundar uma organização sem fins lucrativos chamada Guardians Institute e uma instituição para jazzistas, a New Jazz School. Ambos estão baseados em New Orleans e vão indo muito bem.

Terence Blanchard, que ganhou 4 prêmios Grammys, é conhecido como artista que avançou na tradição do hard bop, além de reciclar procedimentos da fusion africana. Qual a intenção?

Para mim, a tradição é importante sob um aspecto e completamente inconsequente sob outro aspecto. Penso que isso depende de quais aspectos do processo de um músico estejamos falando a respeito. Você pode ter uma canção onde uma seção inteira destina-se a iluminar um determinado aspecto ou tema que tenha relação com a tradição, e outro que desconstrói totalmente a tradição. Ultimamente, para mim, ambas as qualidades me parecem fundamentais.

Em seu novo disco, Yesterday You Said Tomorrow, ouvindo faixas como K.K.P.D., violenta, cheia de distorções, e logo adiante outra faixa como Isadora, lírica, contemplativa, tive a sensação que você trabalha algum tipo de verdade pessoal. Estou certo?

Sinto que é importante ser tão sincero como ouvinte quanto possível. Não sei se é isso que é necessário para se fazer um grande disco, mas é importante como artista e apreciador de música. Conheço artistas que não gostam de escrever sobre suas experiências e ainda assim fazem, em minha opinião, álbuns formidáveis. Apenas tento ser mais honesto sobre minha vida e as relações com as pessoas. Não tenho nada a esconder.

Donald Harrison é seu tio. Ele foi uma influência para você?

Donald foi a maior influência da minha vida na fase de desenvolvimento musical. As coisas que ele dividiu comigo e todos meus colegas ainda ecoam em meu trabalho. Em New Orleans, as relações entre professores e pupilos são diferentes de qualquer outro lugar, talvez porque todo mundo é parente. Isso força um diferente tipo de comprometimento entre mestre e aluno.

Você tem experiência tocando com Marcus Miller e Prince e colaborações com o rapper Mos Def. Eles representam tipos distintos de música. Sente-se mais próximo de algum deles?

Não. Todos os músicos são música para mim, não vejo nenhuma divisão. Amei tocar com cada uma dessas bandas e tocaria de novo. Para mim, tudo se trata apenas de boa música.

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