Tradição pernambucana em dois tempos

Um final de semana com gosto de Pernambuco. No Teatro da Dança-TD, o Grupo Grial, de Recife, e a Cia. Soma, de São Paulo que tem Recife no seu DNA. E no Sesc Vila Mariana, As Conchambranças de Quaderna, de Ariano Suassuna, com direção de Inez Uiana.

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

08 Abril 2011 | 00h00

No TD, os dois espetáculos compõem o programa Bem Casado, que junta trabalhos com algo em comum. Nesse caso, o nome é justo, pois tanto Castanho sua Cor, do Grial, como Festim, da Cia. Soma, mostram interesse pelo universo dos brincantes das danças populares brasileiras.

Ariano Suassuna está ligado ao Grupo Grial desde a sua fundação, em 1997, e Maria Paula Rego, sua coreógrafa e diretora, tem sido uma continuadora da proposta que Ariano transformou em bandeira nos anos 1970. O Movimento Armorial propunha o assentamento de uma arte brasileira nascida da mistura do erudito com o popular. Castanho sua Cor, porque reúne Maria Paula a Seu Martelo, o mais antigo e importante Mateus de Pernambuco, serve como um bom exemplo dessa proposta (Mateus é um personagem da cultura popular brasileira).

Em entrevista por telefone, Maria Paula diz que Castanho sua Cor encerra a trilogia A Parte que nos Cabe, formada pelos espetáculos Brincadeira de Mulato (2006) e Ilha Brasil (2007): "Seu Martelo é um caboclo de lança, cortador de cana, é uma textura que anda no palco, meu contraponto. E a nossa relação é a de brincantes que constuíram as possibilidades de estarem juntos".

Os brincantes são também a inspiração de Maria Eugênia Almeida e Marina Adib, que criaram a Cia. Soma há cerca de três anos. Filha e sobrinha de Antônio Nóbrega e Rosane Almeida, artistas-referência dessa mesma tradição, iniciam uma carreira que faz de seu ponto de partida as danças do frevo, caboclinho, maracatu rural, cavalo marinho, batuques do Sudeste e dança afro. "O que nos interessa é aprender como brincantes, isto é, sempre buscar um jeito seu de fazer. Pegar um passo e ver com o que ele pode ser relacionado para poder ser reconfigurado", dizem.

Marina começou no balé clássico aos 6 anos, e Maria Eugênia, aos sete, já participava das andanças de seus pais na cultura popular. Soma e Grial dividindo o mesmo palco representam duas gerações e dois modos de lidar com a cultura popular. Em outro bairro, em Vila Mariana, Suassuna revela como é ser armorial na linguagem do teatro. Para os que se interessam pela cultura brasileira, trata-se de um curso intensivo muito estimulante.

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