Michael Yada/Efe
Michael Yada/Efe

Tradição e tecnologia

A festa do Oscar exibiu fachada jovem mas manteve a essência antiga, como a distribuição das estatuetas demonstrou

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2011 | 00h00

Hollywood flerta com o futuro sem se esquecer do passado - foi o que demonstrou a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas com a 83.ª edição da entrega do Oscar, em cerimônia que terminou quando já era madrugada de ontem, no Brasil. De um lado, as estatuetas para Colin Firth (ator), Tom Hooper (diretor) e O Discurso do Rei (filme), confirmando o gosto dos eleitores por um cinema de narrativa tradicional.

Do outro, a tentativa de seduzir um público mais novo, elegendo o mais jovem casal de apresentadores da história do Oscar (Anne Hathaway, de 28 anos, e James Franco, de 32), trocando cenários por projeções digitais e, principalmente, escancarando sua opção pelas redes sociais - Franco tuitou nos intervalos, colocando até vídeos em sua página no Facebook, enquanto a paródia de músicas, comum na internet, foi uma das atrações. Afinal, uma pesquisa encomendada pelos anunciantes da cerimônia aponta como a faixa mais expressiva de público a localizada entre 18 e 49 anos.

As inovações dividiram opiniões - em sua edição de ontem, o jornal The New York Times comentou que "os esforços prolongados para atrair a atenção do público mais jovem foram penosos". O coro foi reforçado pelo Boston Herald, segundo o qual "as referências à internet, aplicações e Facebook não transformam um espetáculo em algo moderno e divertido".

Por outro lado, a publicação Weekly elogiou as atuações de Anne e Franco como mestres de cerimônia, afirmando que estiveram "divertidos, equilibrados, relaxados e elegantes". Mas não deixou de lembrar da presença marcante de um veterano apresentador do Oscar (Billy Cristal, que homenageou Bob Hope) e do legendário Kirk Douglas, de 94 anos, que, mesmo com as palavras afetadas pelo derrame sofrido há algumas semanas, brincou gentilmente com a beleza de Anne Hathaway. Ou seja, como muitas celebridades, a Academia de Hollywood procurou exibir uma fachada jovem, apesar da essência mais velha, como demonstrou ao revelar a distribuição das estatuetas.

É como andar em uma corda bamba, mantendo o equilíbrio ao segurar um bastão: os quatro Oscars para o convencional O Discurso do Rei confrontaram com os outros quatro de A Origem, filme considerado avançado pelo uso dos efeitos especiais para narrar uma história (na verdade, um sonho) que acontece simultaneamente em três tempos.

Um observador apressado diria que a balança penderia para os moderninhos ao apontar as três estatuetas de A Rede Social mas, assim como os prêmios para o filme de Christopher Nolan, essas foram todas para áreas técnicas, enquanto O Discurso do Rei só faturou estatuetas de primeira linha.

A vitória qualitativa do longa dirigido por Tom Hooper comprovou a eficácia de produções de orçamento modesto. "O filme não existiria se não fosse o financiamento do governo britânico", observou Gareth Unwin, um dos três produtores premiados. Eles também lembraram da importância de seu braço americano, Harvey Weinstein, que "popularizou" O Discurso do Rei nas últimas três semanas, justamente as decisivas na eleição da Academia.

Uma das figuras mais bem-sucedidas e temidas no ramo do cinema independente, Weinstein dá sinais de sobrevivência depois que a sua produtora, que leva seu sobrenome, acumulou prejuízos a ponto de obrigá-lo a hipotecar 250 filmes de seu acervo para sobreviver.

Foi ele quem descobriu o potencial de O Discurso do Rei, ressaltando sua sofisticação ao humanizar a figura real. Depois, Weinstein explorou cuidadosamente os recursos de marketing do filme, seduzindo o público a ir ao cinema e lembrando aos votantes da Academia de que a comédia de costumes cuidadosamente elaborada era digna de consideração. Diante de um futuro com tantos caminhos incertos, Weinstein parece ter a lanterna dirigida a uma trajetória segura.

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