Tradição e eletrônica

Alfredo Bello, também conhecido como DJ Tudo, leva o som dos quintais do mundo para as pistas de dança e banca suas pesquisas do próprio bolso

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2010 | 00h00

Ele nasceu em Minas, cresceu em Brasília, mora em São Paulo há 12 anos, mas não para em casa. Cidadão do mundo, embrenhado nos Brasis de dentro, Alfredo Bello produz CDs e faz discotecagens inusitadas como DJ Tudo, trazendo para as pistas ritmos incomuns e ancestrais, que registra em suas viagens, reprocessados eletronicamente. Não se parece nem tem contato com nenhum dos DJs modernos da Pauliceia. Se a moda é ser minimalista, na contramão do que todo mundo faz, ele se diz "maximalista". O codinome vem da ideia de misturar tudo mesmo. "Vivo no olho do furacão que eu mesmo criei", diz.

 
 Tiago Queiroz/AE
Na mão de qualquer oportunista ou amador, poderia resultar em mingau indigesto mesclar numa única faixa "o ritmo do maracatu do carnaval do Recife, com metais, baixo e guitarra sugerindo afrobeat, com o canto de Ahmet Male em dialeto Pular do Senegal", como comentou Ben Ratliff, na coluna Playlist do jornal The New York Times. Mas é isso o que ele faz com muita propriedade no segundo e ótimo álbum Nos Quintais do Mundo ? My Comunity Is Humanity, lançado, como os demais trabalhos de pesquisa, por seu selo Mundo Melhor.

Em abril ele lançou a versão em vinil (branco) do primeiro disco, Garrafada (2008), com faixas exclusivas. No site www.selomundomelhor.org, Bello disponibiliza os registros de suas pesquisas em áudio e vídeo e também as gravações dos discos. Cada manifestação e comunidade tem suas atividades didaticamente explicadas em textos. No mês passado, Bello esteve em algumas cidades do Pará, onde comprou uma flauta rara do século 19, registrando os vários sotaques do carimbó. Por seu selo já lançou 13 CDs da série Brasil Passado Futuro, como moçambique de Cunha (SP), congo de Goiânia (GO), banda de pife do agreste de Caruaru (PE), Afoxé Oyá Alaxé e o Maracatu Rural Cruzeiro do Forte, ambos do Recife (PE), as Baianas de Coqueiro Seco (AL), congado de Mogi das Cruzes (SP), entre outros. De todos ele distribui cópias para as comunidades.

"A cultura tradicional é o lugar que mais me surpreende esteticamente. Estou falando em virtuosismo e arte", diz o músico, que tem mais de 1.200 horas de gravações dessas viagens. Seus discos como DJ Tudo resultam das relações que ele sempre observou entre as culturas e ritmos de diversos lugares, entre o tradicional rústico e o contemporâneo eletrônico. Daí evidenciar a afinidade do dub jamaicano com o ijexá ou o jungle com o congo.

Vintage. Músico formado em contrabaixo, ele também toca instrumentos de percussão e teclados e se tornou produtor e engenheiro de som observando outros profissionais com quem trabalhou. Considerado "vintage no mundo do digital", ele tem uma parafernália de equipamentos em seu estúdio no quintal de casa, tão variada e gigante quanto a coleção de milhares de discos de vinil raríssimos e obscuros, adquiridos em sebos e nos rincões brasileiros que nunca chegam à mídia.

O que é mais incrível é que ele banca tudo isso do próprio bolso. Herança? Só a da vocação para o trabalho, que vem do gene de sua mãe. "Parte do que eu ganho em produções de discos invisto nas viagens, nas pesquisas", conta. Bello já deixou sua assinatura em vários bons discos contemporâneos, de bandas como a paulistana Cérebro Eletrônico, a mineira Porcas Borboletas, a cantora brasiliense Ligiana, os cantores e compositores pernambucanos Ortinho e Junio Barreto, além de projetos especiais.

Tendo em mãos o que ele chama de "maior acervo de registro de cultura tradicional brasileira", Bello já tentou algumas vezes obter patrocínio de leis de incentivo, mas sem sucesso. Agora teve a ideia de fazer o caminho inverso. "Eu vou fazer o meu edital e oferecer para as empresas. Quero ver se consigo algum dinheiro para colocar anúncio de meia página em dois ou três jornais pra fazer algum barulhinho." Nos próximos meses ele vai "ser artista", tocando na Europa e na África. "Chegou a hora de ter alguma recompensa por esses dez anos de viagens e registros."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.