Tradição do filme policial à brasileira

Boca, de Flávio Frederico, inspira-se na trajetória de Hirohito Joanides, o rei do baixo meretrício em São Paulo

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2013 | 02h11

Para se dar bem, o cinema policial brasileiro - gênero em que não temos grande tradição - costuma se inspirar em fatos ou pessoas reais. Foi assim com o maior de todos eles, O Assalto ao Trem Pagador (1962), de Roberto Farias, baseado num caso verídico, e é assim neste Boca, de Flávio Frederico, que tem como base a figura de Hirohito de Moraes Joanides (1936-1992), conhecido nos anos 50 e 60 como Rei da Boca do Lixo.

Na prisão, Joanides escreveu um livro exatamente com este nome, Boca do Lixo, que fez muito sucesso. Era um raro dublê de bandido e intelectual e quem leu o livro percebe que ele sabia se expressar muito bem. Era rápido no gatilho e no trato com as palavras. Foi o que seduziu o diretor Flávio Frederico que, no entanto, abreviou o título para Boca, simplesmente.

O filme é estruturado como longo flash-back. Nas primeiras cenas, vemos Hirohito (Daniel de Oliveira) dentro de um carro, num terreno baldio, em companhia de um motorista e uma moça. Perseguido pela polícia, ele não podia parar em lugar nenhum, do contrário seria localizado. Tinha de rodar loucamente pela cidade, quase sem dormir, para não ser apanhado.

O trio mantinha-se acordado à custa de Pervetin, estimulante aplicado na veia. Há um traço alucinógeno nessa parte do livro, cujo clima é, em parte, reproduzido no filme. A partir dessas cenas, Hirohito reconstitui sua trajetória, da infância à juventude. Da ascensão como Rei da Boca ao declínio e à prisão.

O filme tem clima, a partir de uma direção de arte interessante reproduzindo a São Paulo noturna dos anos 50. Daniel de Oliveira é impressionante, como sempre. Com os óculos de fundo de garrafa e um ar de fanática determinação, reproduz a imagem desse bandoleiro de exceção, que lia Baudelaire nas salas de espera dos bordéis mais mixurucas do centro paulistano.

O restante do elenco também é muito bom, com Milhem Cortaz no papel de sócio de Hirohito, Hermila Guedes como Alaíde, sua esposa oficial, Paulo César Pereio como o delegado corrupto e Leandra Leal como a amante em suas aventuras finais.

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