Tradição com referência pop

António Zambujo vai além do fado, entre uma canção sobre 'o amor inútil' e o bom humor de Zorro

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2010 | 00h00

A profunda melancolia da letra e da melodia de Guia, fado que abre o CD homônimo de António Zambujo, é típica do mais famoso gênero de música portuguesa. Nela, o simbólico sentido da navegação necessária encontra o mito da nostalgia de amor em intensa aventura poética: "Atravessei o oceano/ Sem o teu amor de guia/ Só tempo no meu bolso/ E o vento que me seguia/ Venci colinas de lágrimas/ Tempestades de lembranças/ Mas tu já não me querias mais." Na voz deslumbrante de Zambujo, com arranjo essencial, isso é uma pedrada para qualquer sentimental.

Se nem todas as canções do disco seguem nessa linha emotiva - Reader"s Digest (Miguel Araújo Jorge), em que ele se aproxima do jazz, e Zorro (João Monge/João Gil), com toque de bossa nova, são bem alegres -, os arranjos se mantém econômicos e variados. Há poucos instrumentos acompanhando a voz límpida do cantor, que desenha um balé sem afetação por entre as canções. São basicamente instrumentos de corda, com eventuais intervenções de sopros em Zorro (clarinete), A Deusa da Minha Rua (trompete), De Mares e Marias (flugel) e Em Quatro Luas (clarinete).

Poema dos Olhos da Amada (Vinicius de Moraes/Paulinho Soledade), que Elizeth Cardoso cantou a capella em gravação antológica ao vivo, aqui só tem a voz de Zambujo e a guitarra portuguesa de Bernardo Couto, com todas as pausas e silêncios que se fazem necessários.

"Esse tipo de sonoridade já vem do disco anterior, mas nesse talvez seja um pouco mais assumido. A base do meu trabalho é sempre voz e violão para deixar um espaço para respirar, como eu gosto. A partir daí, é tentar preencher a música ao nosso gosto com outros instrumentos, principalmente guitarra portuguesa (nesse disco também tem sopros, cavaquinho).

Do Alentejo. Compositor bissexto (é dele Toada Alentejana I, umas das faixas do novo álbum), Zambujo vem do Alentejo, onde a música e as tradições culturais são completamente diferentes de Lisboa, cidade para a qual se mudou há dez anos. "A música que se faz no Alentejo não tem muito a ver com o fado, que, apesar de estar em todo o país, é uma música essencialmente de Lisboa. No meu caso, como tenho influência do canto tradicional alentejano, acabo por trazer um pouco dessa maneira de interpretar." Essa forma de canto dispensa a excessiva dramatização, como se ouve na voz de alguns fadistas mais convencionais.

Amália Rodrigues (que ele gravou no CD anterior) também não era da capital portuguesa, mas da Beira Baixa e, como observa Zambujo, trouxe para suas interpretações "um pouco do folclore e da música tradicional de lá". O cantor gosta mais de ser identificado como músico português do que como fadista. "Não que considere isso como redutor, mas ser reconhecido como músico me faria mais justiça."

Bom humor. Em meio a canções melancólicas, como Barroco Tropical (José Eduardo Agualusa/Ricardo Cruz), que diz que "o amor é inútil", "sem préstimo", "a ninguém serve", "é uma estação perigosa" -, a referência pop de Zorro, com letra sensual e bem humorada ("Eu quero marcar um Z dentro do teu decote") e com uma levada de bossa, é uma boa surpresa. "Escolhi essa canção pela simplicidade da mensagem, pela letra contemporânea, por falar do Benfica, que é meu clube.

Os autores, João Jorge e João Gil, são bastante prestigiados em Portugal e foram ligados a uma banda de rock que existia nos anos 80, Trovante. De outra banda de rock (Azeitonas) também vem Miguel Araújo Jorge, que compôs Reader"s Digest. "Essa acho que é ainda mais contemporânea do que Zorro, tem uma letra meio satírica, a falar do homem que quer aquela vida pacata. No fundo, acaba sendo a história de um homem normal hoje em dia."

A base do show de amanhã no Bourbon Street é o repertório de Guia, mas "há sempre uma flexibilidade", e Zambujo deve incluir canções dos discos anteriores e outras que nem foram gravadas. O cantor, que também toca violão, será acompanhado por Bernardo Couto (guitarra portuguesa), Ricardo Cruz (contrabaixo) e Jon Luz (cavaquinho), que participaram do disco.

Áudio. Ouça trecho da faixa Guia em

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