Tradição brasileira

Com as crônicas de As Coisas da Vida, António Lobo Antunes confessa paixão pelo gênero consagrado no País

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2011 | 03h08

Tudo começou como um exercício estilístico - em troca de um ínfimo soldo, o escritor António Lobo Antunes, um dos mais festejados da atualidade, começou a escrever crônicas dominicais para a imprensa portuguesa. "Depois de um tempo, quando já não estava mais disposto a continuar, pedi um valor bem mais alto, acreditando interromper a colaboração", contou ele ao Estado, em entrevista por telefone desde Lisboa. "Para minha surpresa, eles aceitaram e tive de manter a rotina."

Nada surpreendente, no final das contas, esse interesse dos editores. Conhecido por levar ao extremo a subversão da estrutura narrativa - cada capítulo de seus romances se compõe de frases que vão criando melodias e ritmos insuspeitos que conduzem a uma leitura vertiginosa -, Lobo Antunes, em suas crônicas, volta-se para a intimidade, navegando entre saudosas lembranças familiares e observações de seu cotidiano. É quase como outra faceta do mesmo escritor, menos experimental mas igualmente contagiante.

Basta conferir as 60 crônicas que compõem As Coisas da Vida, recentemente lançado pela Alfaguara, selo da editora Objetiva. Ali estão textos selecionados de dois volumes que já circulam em Portugal, Livro de Crônicas e Segundo Livro de Crônicas, que, por sua vez, reúnem material publicado no jornal Público e na revista Visão. Uma adorável viagem em que Lobo Antunes navega entre experiências pessoais, quando trata do tempo em que trabalhou como médico na guerra em Angola, de amigos que cruzaram sua vida e, principalmente, dos momentos passados em Belém do Pará, onde morava o avô e um bando de tias.

Engana-se, porém, quem acredita que o escritor sente prazer nesse tipo de escrita. "É uma chatice, pois interrompe o ritmo do romance que escrevo no momento - para voltar, é complicado", afirma Lobo Antunes, que lança em outubro, em Portugal, Comissão das Lágrimas. "Quando não estou escrevendo um livro, não tem problema. Mas, se estou trabalhando em algo, sou obrigado a sair do ritmo do romance para o da crônica, que é bem diferente. Também não posso ser muito profundo, pois o gênero não permite."

Não se trata de descaso - íntimo conhecedor da crônica, Lobo Antunes resigna-se a louvar aquela que, em seu parecer, é a mais perfeita: a brasileira. "Se há algum país que tem de se orgulhar de seus cronistas, é o Brasil. E não falo apenas de Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino - há um escritor que considero importante salientar seu trabalho: Paulo Mendes Campos."

Da mesma forma que se rende à técnica seca e precisa do verso de João Cabral de Melo Neto, o escritor português maravilha-se com os textos do colega mineiro, que morreu em 1991. "Suas crônicas sobre literatura são maravilhosas: Paulo Mendes Campos fez considerações fundamentais sobre Virginia Woolf, além de ter escrito a melhor análise que já li sobre o Coração das Trevas, de Conrad. Outro dia, li em voz alta esse texto e percebi que é uma lição de teoria literária", observa. "Também as crônicas de futebol são empolgantes mesmo para quem não conhece nada do esporte. E não vi, em língua portuguesa, melhor tradução dos poemas de Dylan Thomas que a feita por ele. Não o conheci, mas o considero um artista injustamente esquecido. Era um homem com um conhecimento ético da profissão."

Esse detalhe é essencial no exercício do ofício, segundo Lobo Antunes. Para ele, a crônica é uma intervenção cívica e cita Carlos Drummond como exemplo. "Apesar de não gostar tanto de sua prosa como amo a poesia, há sempre um sentido ético em seus textos. Sempre aprendo muito quando releio o Drummond cronista."

Apesar de bom leitor, Lobo Antunes confessa-se um novato na escrita de crônicas. Ele conta que nunca tinha escrito uma até surgir o convite da imprensa lisboeta. O assunto era o que mais lhe preocupava. "Quando comecei, pensava em temas comuns pois seria dirigido ao leitor de fim de semana. Depois, pensei em usá-las como um contraponto dos livros, algo como anotações feitas às margens dos escritos. É prazeroso o trabalho, mas a crônica condiciona o número de palavras e não pode ser profunda."

Na conversa com o Estado, Lobo Antunes quis saber se a seleção publicada pela Alfaguara trazia textos relativos ao Brasil. Sossegou ao descobrir que constam algumas, especialmente a que traz lembranças do avô que morava em Belém, ao lado de tias muito velhas, que moravam "no fundo de corredores compridíssimos entre brilho de pratas, latas de biscoitos e objetos sem sombra de que as pessoas idosas se rodeiam".

"Escrevi várias crônicas sobre meu avô que nasceu em Belém", conta. "O Lobos saíram de Portugal antes dos Antunes. Foi durante a inquisição e, depois de perambular pela Europa, eles chegaram ao Brasil. Quem me contou isso foi um senhor, em Jerusalém, que sabia detalhes dessa diáspora portuguesa. E também a saga dos Lobos até chegar ao Brasil. Os Antunes eram do meu tetravô, que foi ao Brasil e conheceu minha tetravó Lobo, que já estava lá. Creio que o ramo dos Lobos da minha família está há 300 anos no Brasil."

Mais que da política e da vida real, Lobo Antunes trata, na verdade, da vida interior. Há obsessões que se repetem em seus romances, uma delas é a inexorável decadência física que leva à morte. O mesmo acontece em suas crônicas, nas quais as palavras geram umas as outras. Sem plano nenhum. "Eu me sinto à mesa e a mão funciona quase que mecanicamente. Faço uma primeira versão, corrijo as patetices, pleonasmos e parvoíces como 'colocar o chapéu na cabeça' - vai colocar onde, no pé?"

O resultado, como se espera de uma boa crônica, são textos aparentemente simples, em que passagens triviais da vida ganham dimensão universal.

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