Traços abstratos

Livro destaca a obra de Manabu Mabe, pintor que uniu a milenar cultura japonesa e o modernismo brasileiro

MARIA HIRSZMAN, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2013 | 02h11

Desde a morte de Manabu Mabe, em 1996, poucas foram as ocasiões de ver e refletir sobre sua obra. Alguns fatores parecem justificar esse relativo silêncio, dentre os quais destaca-se a aparente fissura entre sua produção seminal e inovadora dos anos 50 e 60 e a diluição de seu caráter inovador, em consequência de certos maneirismos adotados na fase posterior, alimentando uma enorme receptividade comercial de seu trabalho. É como se existissem dois Mabes, separados por uma clara linha divisória: o biênio 1959-1960, quando o artista torna-se internacionalmente consagrado com uma velocidade sem precedentes no País.

Ao publicar um extenso volume no qual estão reunidos um ensaio escrito por Paulo Herkenhoff e uma série de extratos críticos de diversos autores que já se debruçaram sobre a obra de Mabe, a editora Pinakotheke ajuda a preencher uma lacuna e recoloca em pauta a importância da produção de Mabe - e de outros artistas de origem japonesa - na história da arte brasileira do século 20.

Para marcar o lançamento também foi organizada no espaço expositivo mantido pela editora em São Paulo uma mostra com 36 pinturas do artista, boa parte pertencente à coleção de Arturo Profili, amigo e agente do artista e que possui um conjunto significativo de obras desse período. O conjunto adquire ainda mais importância quando se considera sua raridade, já que dezenas de telas desse rico momento da produção de Mabe se perderam em um acidente aéreo em 1979, quando o avião que trazia obras expostas no Japão sumiu no Pacífico.

O livro traz uma seleção ainda mais ampla, com mais de uma centena de imagens e diversos registros fotográficos do artista, permitindo uma observação detalhada de suas principais obras e dos principais aspectos dessa produção, considerada por muitos como um poderoso sincretismo entre a cultura milenar japonesa, a efervescência do modernismo brasileiro e os potentes movimentos abstratos e expressionistas em eclosão por todo o mundo.

Essa é exatamente a tônica da análise proposta por Herkenhoff, que procura contextualizar essa produção em termos históricos mais amplos, traçando a situação do trabalho dos imigrantes japoneses desde o contexto discriminatório e elitista do primeiro modernismo até sua crescente absorção e valorização posterior à 2ª Guerra Mundial. Ele inicia lembrando da dificuldade enfrentada por eles para encontrar espaço na disputa entre acadêmicos e modernos, mesmo que estes últimos tenham demonstrado um interesse pelo caráter exótico, decorativo do japonismo, até concluir que a ambiguidade entre gesto e caligrafia constituem a força desse artista, a quem atribui a "enunciação do inaudito na arte brasileira" e uma "tropicalização da sóbria escritura japonesa".

Enquanto Mário de Andrade intitulava, em 1934, uma figura da grandeza de Yoshiya Takaoka apenas como "caricaturista japonês", Mabe estava chegando ao Brasil com a família. Só depois do que Mário Pedrosa definiu como seu "estágio obrigatório de imigrante", na lavoura, é que começa a pintar. Primeiro nos fins de semana e dias de chuva. Depois de muito treinar copiando imagens de revistas, de vender gravatas que ele próprio tingia e pintava, ele abraça o abstracionismo e torna-se "o pintor caligráfico brasileiro por excelência", como define Herkenhoff.

Outros, como Tomie Ohtake e Flávio Shiró, o acompanham nesse mesmo processo de hibridação de culturas. Anseio semelhante se faz sentir em artistas brasileiros, que se abrem para o Oriente, como Mira Schendel e Wesley Duke Lee. Herkenhoff procura mostrar que essa relação Oriente e Ocidente tem mão dupla e enfatiza que não existiria a arte brasileira sem a presença da arte japonesa.

Segundo ele, nesse processo - dentro do qual Mário Pedrosa desempenha um papel decisivo -, "o Brasil, definitivamente, internacionaliza-se nas questões de linguagem em lugar de meramente atualizar-se com os modelos internacionais hegemônicos". E conclui afirmando que "Mabe é o artista moderno que introduz a caligrafia ideogramática oriental na arte brasileira, abrindo-a para novas dimensões semânticas antes desconhecidas", acrescenta.

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