Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Tracey Emin exibe obras pela primeira vez no Brasil

Celebrada artista inglesa apresenta em São Paulo seu trabalho de tom confessional

CAMILA MOLINA - O Estado de S.Paulo,

29 de novembro de 2012 | 23h59

Falar sobre si e sobre o amor "é das coisas mais antigas que se pode fazer em arte". "Não é nada demais. Edward Munch fez isso, Egon Schiele, Frida Kahlo, Louise Bourgeois", enumera a artista britânica Tracey Emin, que se consagrou por uma obra de tom intimista, confessional, exibicionista. "Colocar suas próprias experiências e emoções nos trabalhos é uma tradição muito antiga, não é uma moda", continua Tracey, que está em São Paulo para a inauguração de sua primeira individual no Brasil, a mostra You Don't Believe in Love But I Believe in You (Você Não Acredita no Amor, Mas Eu Acredito em Você), no espaço que a galeria inglesa White Cube definitivamente abre em São Paulo.

O título da exposição de Tracey Emin é o mesmo de um letreiro em néon "rosa romântico" feito a partir da própria caligrafia da artista. O trabalho está no galpão que a White Cube de Londres, que também representa criadores celebrados como Damien Hirst, Gilbert & George, Anselm Kiefer e Doris Salcedo, alugou no bairro da Vila Mariana, apostando no mercado de arte de São Paulo. "A cidade é muito importante, tem colecionadores, museus e instituições de peso, queremos desenvolver uma rede aqui; apenas as taxas de importação são muito altas", diz Tim Marlow, diretor da galeria, que também abriu, este ano, espaço em Hong Kong.

Tracey é uma celebridade, "uma artista de grande reputação", continua Tim Marlow sobre a escolha da inglesa. Ela se tornou, desde a década de 1990, quando estourou com a geração young british artists (ou YBA), a "segunda mulher mais popular do Reino Unido, depois da rainha Elizabeth II", afirma Philip Larratt-Smith, curador de mostra de vídeos de Tracey em cartaz no Museu de Arte Latino-americana de Buenos Aires (Malba) e que participará hoje de palestra com a artista no Centro Brasileiro Britânico de São Paulo.

Nascida em 1963 em Londres, onde vive e trabalha - mas às vezes, ela também cria em sua casa de campo no Sul da França, como conta -, Tracey Emin decidiu mostrar em São Paulo a heterogeneidade de meios que utiliza em sua "obra como espelho". "Uso poesia, cores, néon, esculturas, romãs, animação, monotipias, pinturas, desenhos. Não tenho limite, não penso sobre isso", ela explica. O tom de sua exposição na White Cube se dá justamente com a figura da mulher nua, séries de autorretratos da artista criados em desenhos, pinturas e bordados, nos quais o azul é a cor de expressão.

Tracey rejeita qualquer relação dessa série de obras com a fase azul melancólica e depressiva do pintor Pablo Picasso. "Não gosto de usar o preto, azul é mais emocional e o oposto da depressão. Antes do amanhecer, o céu está especialmente azul; mesmo na primavera, à noite, o céu está especialmente azul. É a cor da iluminação, de nascimento, do começo da vida", define a artista.

A mulher de suas obras, entretanto, está sempre só, reclinada na série Thinking of You (Pensando em Você); ou deitada, mas descontraída em trabalhos como Full Love (Amor Pleno) ou Deep Blue Mass (Profunda Massa Azul), todos de 2012. Mais ainda, em Those Who Suffer Love (Aqueles Que Sofrem Amor), animação feita a partir de monotipias exibidas ao lado - que Tracey diz não ser um autorretrato -, uma mulher se masturba. A solidão é expressada, ainda, na obra Dead Sea (Mar Morto), um colchão manchado no chão que tem um galho fundido em bronze em seu centro. O trabalho não deixa de ser uma referência à instalação My Bed, exibição de sua própria cama suja, com camisinhas e sangue, com a qual ela venceu, em 1999, o prêmio Turner.

"Emin é alternadamente romântica, desiludida, vulgar e graciosa", define Larratt-Smith no texto do catálogo da mostra How It Feels, na Argentina. Tracey completa, ainda, a necessidade de ser feminista como parte de suas características. "Não é preciso mais ser como na década de 1970, mas com novo foco. Muitos acreditam que hoje já não é mais importante ser feminista ou uma artista feminista, mas é importante sim, porque muitas mulheres ao redor do mundo passam por situações horríveis, são enterradas vivas." Entretanto, ela não considera sua obra uma declaração política. "Mas quando faço um trabalho sobre o aborto e o mostro na Argentina, por exemplo, ele se torna político porque naquele país o aborto não é permitido", comenta.

TRACEY EMIN

White Cube. Rua Agostinho Rodrigues Filho, 550. 3ª a sáb., 11 h/ 19 h. Grátis.

Até 23/1. Abertura neste sábado, 01/12.

Centro Brasileiro Britânico. Rua Ferreira de Araújo 741. Nesta sexta-feira, 30, às 20 h, debate.

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