Mark J.Terril/Ap
Mark J.Terril/Ap

Trabalho interno e a fraude financeira

Ao expor a crise, Charles Ferguson quis protestar contra a impunidade

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2011 | 00h00

Quando percebeu que Lixo Extraordinário acabara de perder o Oscar de documentário para Trabalho Interno, Tião dos Santos, o reciclador que se tornou o expoente do filme, ligou o mais rapidamente possível para o Jardim Gramacho, na periferia do Rio. Lá, onde mora e trabalha há vários anos, outros catadores como ele acompanhavam a cerimônia em um telão (leia ao lado). "Pedi para as pessoas não desanimarem e não pararem com a festa", disse ele ao Estado. "Chegamos tão alto, ganhamos uma indicação para o Oscar, que a derrota se tornou um detalhe."

De fato, oficialmente dirigido pela inglesa Lucy Walker (mais da metade das imagens editadas, no entanto, foi coletada pelo brasileiro João Jardim), o documentário despertou atenção em Los Angeles especialmente por unir arte (o tema é o novo trabalho do artista plástico Vik Muniz) e ecologia (Tião trabalha em um lixão onde comanda uma comunidade comprometida com a reciclagem).

"São dois temas cada vez mais em voga no mundo atual", comentou a produtora executiva Jackie De Botton que, assim como Tião e Vik, foi à cerimônia do Oscar usando roupas com detalhes confeccionados a partir de material recolhido no Jardim Gramacho. "O documentário não apenas retratou uma dura realidade, mas principalmente propiciou que aquelas pessoas ganhassem notoriedade", completou o artista plástico.

Mesmo derrotado, o grupo brasileiro participou de uma festa originariamente programada para comemorar a vitória. "O importante é não perder a empolgação", decretou Tião.

O lamento, porém, diminui quando se observa a grandeza do filme vencedor, Trabalho Interno, dirigido por Charles Ferguson, ainda em cartaz em São Paulo. A partir de uma pesquisa incrivelmente detalhada, o documentário explica quais foram os motivos que levaram à crise mundial de 2008.

Mais que uma explicação, Trabalho Interno revela uma indignação contra a impunidade no sistema financeiro. "Três anos após uma terrível crise financeira causada por uma fraude maciça, nenhum executivo foi para a cadeia. Isso não está certo", disse Ferguson, ressaltando seu ceticismo. "Infelizmente, penso que a razão seja, predominantemente, que o setor financeiro se tornou tão politicamente poderoso a ponto de inibir o processo normal da Justiça e da Lei. E estou certo também que as decisões pessoais foram feitas pelo presidente Obama e os membros de alto nível do governo sobre essa questão. Eles, aliás, não quiseram gravar entrevista."

Ferguson acredita que a solução só virá de uma reação popular. "Algo só acontecerá se o povo americano realmente se sentir indignado."

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