Michelle Groskopf/The New York Times
Michelle Groskopf/The New York Times

Toygers: cresce a demanda nos EUA por felinos híbridos

Apesar das aparências, o toyger nada tem a ver com o tigre – pelo menos não mais que os quase 96% do DNA de tigre que há em todos os gatos domésticos

Alexandra Marvar, O Estado de S. Paulo

03 de junho de 2020 | 05h00

Não faz muito tempo que os felinos selvagens estavam associados à ideia de glamour, classe e criatividade. Salvador Dalí trouxe sua jaguatirica para o St. Regis. Tippi Hedren cochilava com leões na sua sala de estar em Los Angeles. O guepardo de Josephine Baker passeava pelos Champs-Elysées, com colar de diamantes e tudo. Na época, essas criaturas selvagens eram animais de estimação chiques.

Mas, em meados da década de 1970, uma onda de conscientização e de legislação sobre a proteção da vida selvagem transformou tanto a visão sobre a posse dos grandes felinos quanto a possibilidade de comprá-los legalmente.

Enquanto isso, uma criadora de gatos chamada Jean Mill estava trabalhando numa alternativa mais prática: seu bichinho malhado feito leopardo tinha apenas dez centímetros de altura. Em seu gatil no sul da Califórnia, Mill inventou uma raça de gatos domésticos chamada bengala, que proporcionava aos admiradores de felinos selvagens o melhor dos dois mundos: impecável pelugem de leopardo, tamanho e comportamento de gato doméstico.

A filha de Mill, Judy Sugden, de 71 anos, deu continuidade a seu legado. Sugden cresceu observando e ajudando a criar a raça bengala. Apesar de ter se formado em arquitetura, ela percebeu que sua verdadeira vocação estava no gatil. “Pensei: ‘caramba, não quero ser arquiteta’”, disse ela, “Na verdade, o que eu queria projetar era um gatinho lindo.”

Pode parecer um plano de carreira incomum, mas o mercado de gatos de designer é próspero, com a oferta sem conseguir atender à demanda e mais de 40 mil criadores de gatos domésticos registrados em todo o mundo se dedicando a fornecer gatos ragdoll, sphynx e de outras raças muito admiradas. (A Peta, organização que defende o direito dos animais nos Estados Unidos, argumentou que essa clientela deveria adotar gatos de abrigo).

Na década de 1980, Sugden imaginou um gato doméstico com uma pelugem brilhante e listrada de laranja e preto, lembrando um tigre. Teria orelhas pequenas e redondas, nariz largo e barriga branca, como um tigre. Pesaria uns 4,5 quilos, mas se moveria pela sala como se pudesse derrubar uma gazela. Tudo isso evocaria a sedutora “essência do tigre”, disse ela. Seria chamado de toyger – um tigre de brinquedo.

Uns vinte anos depois do experimento de Sugden, em 2007, a Associação Internacional de Gatos (Tica, na sigla em inglês) declarou que o toyger era uma raça de gatos de competição. Deu na capa da revista Life. “Vai ter uma febre de toyger”, disse à revista a então presidente da Tica, Kay DeVilbiss.

E, de fato, o apelo dos gatos de aparência selvagem só aumentou nos últimos anos, disse Anthony Hutcherson, 45 anos, escritor de discursos políticos, criador de gatos bengala e antigo pupilo de Mill. “Acho que as pessoas querem coisas que as fazem pensar em ‘selvagem’ de imediato”, disse ele em seu gatil, o Jungletrax, no sul de Maryland. “Padrões de alto contraste, coloração extraordinária, aparência e proporções de um leopardo de verdade.”

À medida que as preferências foram mudando, disse Hutcherson, “o mercado explodiu” para gatos bengala, com cerca de 2 mil criadores de Baltimore a Bucareste e cerca de 60 mil Bengala registrados em todo o mundo. Enquanto isso, Sugden estima que apenas 150 criadores em todo o mundo estejam dedicados ao toyger.

Entre eles está Anthony Kao, 50 anos, que cria toygers e outros animais, como papagaios e espécies de corais, no seu gatil Urban Exotic Pets, em Los Angeles. “O principal motivo pelo qual temos essa raça é que podemos satisfazer a curiosidade humana pelo exótico sem um exótico de verdade”, disse ele.

Ligres, beefalos e ursos grolar. Os seres humanos vêm combinando as características favoráveis de um ser vivo com outro há séculos, produzindo criações que vão desde a maçã Honeycrisp ao husky siberiano.

Tais esforços criativos têm gerado – não sem uma grande objeção dos ativistas do bem-estar animal – espécies híbridas, como o beefalo, mistura de boi com búfalo, o ligre, misto de leão com tigre e até o urso grolar (meio pardo, meio polar).

Mas, apesar das aparências, o toyger nada tem a ver com o tigre – pelo menos não mais que os quase 96% do DNA de tigre que há em todos os gatos domésticos. Como seus cromossomos evoluíram de maneira bem diferente desde que as espécies se separaram, 11 milhões de anos atrás, criar um tigre selvagem a partir de um gato domesticado hoje seria uma impossibilidade biológica.

Então, como você consegue que um gato doméstico se pareça com um tigre sem ter ascendência tigresa? “Não temos os genes”, disse Sugden, em sua casa em Los Angeles. “Então, temos que fazer uma coisa meio fake.”

Hoje, os gatinhos toyger podem custar até US$ 5 mil – preço comparável ao de um tigre de verdade no mercado americano. Se os preços parecem altos é porque esses criadores devem cobrir todo o custo de um dono de pet (comida, contas de veterinário, seguro de animais de estimação), multiplicado muitas vezes. Além disso, envolver-se para valer com a evolução genética de uma espécie é um sério investimento.

Os testes de DNA felino que ajudam os criadores (e donos de pet) a fazer exames sobre aspectos ou distúrbios morfológicos custam a partir de US$ 89 por felino. E, para continuar a pesquisa, Hutcherson recentemente trabalhou com um geneticista de gatos, Dr. Chris Kaelin, da Universidade de Stanford, para clonar um de seus gatos campeões, a um custo de US$ 25 mil.

Como cada gatinho é um investimento, os criadores nesse nível tendem a avaliar seus potenciais compradores com tanto rigor quanto um comprador avalia o vendedor. Os contratos geralmente estipulam que o comprador deve castrar seu gato e que nenhum gato acabará num abrigo. Os gatos ainda vêm com uma política de devolução incondicional.

A localização também é um problema: os gatos considerados híbridos, como o bengala, são ilegais em alguns lugares, como Nova York e Havaí. Em Rhode Island, os donos de toygers – por causa da presença bengala em sua linhagem – precisam de uma permissão, assim como os proprietários de jacarés, chimpanzés ou lobos de estimação.

“Existe muita gente neste mundo que não liga para o toyger”, disse Sugden. “Tem muita coisa neste mundo para que ninguém liga. Mas ninguém ligava para a Mona Lisa até descobrirmos a existência da Mona Lisa.” / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.