Totens de madeira recriam dez cenários

Bastou apenas uma leitura do texto de A Forma das Coisas para Guilherme Leme logo se engajar no projeto - além de ator e diretor, ele se dedicou às artes plásticas durante dez anos, assunto que é o ponto de partida da peça escrita por Neil LaBute em 2001. "A forma como ele discute o rumo da arte contemporânea me encantou profundamente", conta Leme, que assina a direção da montagem que estreia hoje no Espaço dos Parlapatões.

, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2010 | 00h00

Bastou a primeira cena para cativá-lo: prestes a concluir seu mestrado sobre Artes, Evelyn (Carol Portes) decide pichar a imensa escultura de um homem nu, cujo pênis foi estrategicamente coberto por uma folha de parreira para não ofender a moral pública de uma interiorana cidade dos Estados Unidos. Adam (Pedro Osorio), o tímido e introspectivo segurança do museu, tenta impedir, mas acaba dissuadido por ela. Mais: encantado com a garota, ele começa a namorá-la e, pouco a pouco, inicia a transformação de seu jeito de ser, física e moralmente, moldando-se aos desejos de Evelyn.

A mudança não é apenas comportamental - de gordinho e nerd, Adam adquire o perfil de um rapaz descolado, provocando estranhamento em Diana (Karla Dalvi) e Johnny (André Cursino), amigos que foram deixados para trás em nome de sua paixão pela moça. "O que o público não percebe de imediato são as intenções de Evelyn", conta Leme, obviamente guardando o segredo para quem for ao teatro. "As frases finais dela provocam uma certa perplexidade."

Da dramaturgia de LaBute, Leme conhecia apenas o texto dirigido por Monique Gardenberg, Baque. E ali identificou um paralelismo entre uma tragédia grega e fatos contemporâneos. "LaBute gosta não apenas de misturar épocas como também de utilizar recursos do cinema e do teatro. Afinal, se seus filmes privilegiam, muitas vezes, os diálogos (a câmera praticamente não se movimenta), as peças têm uma sucessão de cenas que lembra a troca de cenários de um longa."

É o que acontece, aliás, em A Forma das Coisas - depois de começar em um museu, a trama avança por outros nove lugares diferentes (sala de apartamento, vestiário de escola, cafeteria, parque, auditório da faculdade, etc.). A solução foi utilizar um cenário mínimo, com apenas cinco totens brancos de madeira.

"Dependendo da posição, eles tanto simbolizam o banco de um vestiário como as palmeiras de um parque", conta Leme. "A arte, como diz a peça, é transformadora." / U.B.

A FORMA DAS COISAS

Espaço Parlapatões (96 lugares). Praça Roosevelt, 158,

centro, tel. 3258-4449. 5ª, 21 h;

6ª, 21h30. R$ 30. Até 21/5

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.