Tortuoso caminho rumo à salvação

Você lê Tolstói porque simplesmente não pode parar, gostava de afirmar Vladímir Nabókov, apaixonado pela obra de seu grande precursor. Os leitores brasileiros terão agora a sorte de sentir o mesmo que Nabókov: basta abrir a primeira tradução direta do russo do monumental romance de Liev Tolstói, Ressurreição. Publicado pela Cosac&Naify, o livro foi traduzido por Rubens Figueiredo, que, além de ser um escritor premiado, se destaca hoje como um dos melhores tradutores da literatura clássica russa.

Elena Vássina, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2010 | 00h00

Passado um século desde a morte de L. Tolstói, nossos contemporâneos se sentem mais próximos do grande clássico russo e mais maduros para redescobri-lo inteiro, tão complexo e tão instigante em sua obra e vida, ambas incrivelmente entrelaçadas. Ainda jovem, L.Tolstói, autor de Guerra e Paz (1869) e Anna Kariénina (1877), conheceu extraordinária fama internacional (até chegou a ser eleito, em 1898, membro correspondente da Academia Brasileira de Letras). Suas obras foram amplamente traduzidas e editadas no mundo inteiro. Parecia que o conde Tolstói já tinha alcançado tudo que se pode sonhar.

E, de repente, o escritor fica abalado por uma profunda crise espiritual: confessa que só pensava em suicídio. Em 1879, Tolstói escreve A Confissão, que relata com impressionante sinceridade a via dolorosa das tormentas e dúvidas existenciais que tinha experimentado em busca de ressurreição e como, no fim, conseguiu encontrar o caminho da iluminação espiritual. Muitos estudiosos acreditam que, a partir desse momento, o autor de grandes obras-primas trai o talento literário e se torna um pregador fanático de sua doutrina (o "tolstoísmo") - um escritor-moralista. Porém, tentar separar as múltiplas facetas de Tolstói seria aniquilar sua grandiosa personalidade. Reconhecido líder espiritual e defensor ardente das causas dos pobres e famintos, em nenhum momento Tolstói deixou de ser um grande escritor. Anton Tchékhov confessou para um de seus correspondentes que "nunca amou ninguém mais do que Tolstói. (...) Quando existe um Tolstói na literatura, torna-se fácil e agradável ser um literato, e não é tão terrível perceber que não fiz nada, nem vou fazer, porque Tolstói faz por todos. Sua atividade serve para aprovar as esperanças e aspirações exigidas pela literatura".

O imbatível talento de Tolstói marca a criação de Ressurreição, que, segundo a definição de Mikhail Bakhtin, representa na Rússia e, também, no Ocidente, "um exemplo mais perfeito e mais coerente de romance sócio-ideológico". Realmente, o agudo olhar crítico de Tolstói pinta um vasto painel da realidade russa: julgamentos e cadeias, prisioneiros políticos e criminosos, estruturas de poder e ministérios, salões aristocráticos e camponeses no campo, a vida na capital e os sofrimentos dos condenados aos trabalhos forçados na Sibéria. Há descrições espantosas de miséria humana e de gritante injustiça social: o gênio de Tolstói tardio abre as feridas sócias e leva os leitores aos fundos e aos confins do inferno terrestre.

Mas, não há como esquecer que o romance Ressurreição "enxerga, além do caos, o advento da graça". Para salvar a prostituta Katiucha Máslova, condenada a trabalhos forçados na Sibéria, o príncipe Nekhliúdov (personagem principal do romance que, em certo sentido, pode representar o alter ego do autor) percorre o longo caminho da sua própria ressurreição. Durante o julgamento, Nekhliúdov, um dos membros do júri, reconhece na mulher decaída uma jovem criada que ele tinha seduzido e abandonado, acreditando então que provocara assim a trágica reviravolta da vida de Katiucha. A história desses dois personagens principais até poderia parecer inverossímil e demasiadamente melodramática (ou, se quiser, moralizante) se não fosse baseada em acontecimentos reais. (A verdadeira história do príncipe que quis casar com a prostituta, vítima de sua volúpia juvenil, foi relatada ao escritor por um amigo seu, o advogado A. Kóni.) Então, Tolstói tem toda a certeza de que a ressurreição do ser humano é possível quando se realiza pelo esforço interno e individual de cada um. Eis o credo tolstoniano, mais do que atual à luz de nosso tempo.

ELENA VÁSSINA É PROFESSORA DE LÍNGUA E LITERATURA RUSSAS NA USP

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