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Tortuosidades verbais

Repare na ginástica que se faz para não dizer que alguém é pobre, feio ou gordo

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

22 de janeiro de 2019 | 02h00

A conversa da semana passada, sob o título “A feiura da pessoa interessante”, sobre gente que, não sendo especialmente bela, a delicadeza manda não chamar de feia, acabou alimentando um papo a respeito de modos tão acolchoados quanto enviesados de se referir às criaturas que, diria minha mãe, foram menos bem aquinhoadas pela natureza.

Quem abriu os trabalhos foi o Mario, para observar que o noivo pobre, por exemplo, quando não chegue a ser um Apolo, corre o risco de que se lhe colem, à guisa de elogio principal – quando não único –, o rótulo de “trabalhador”. Pode-se imaginar o infeliz a cabecear de sono no ônibus matinal que o conduz a seu distante local de trabalho. 

O Mario fala com a experiência de quem, na sua adolescência de tostões contados, foi amigo de menina rica, cuja mãe encenava jovial naturalidade quando, na sua roda de senhoras endinheiradas, o assunto recaía no frangote desmonetizado que dera de frequentar a sua casa: 

“Ele é pobre”, concedia madame, “mas é bem esforçado”. 

Só faltava dizer que o moço era “limpinho”, qualificativo reservado aos que fossem ainda mais pobres, e o Mario não chegava a tanto. De que era “esforçado” não há dúvida, bastando lembrar que, talentoso e batalhador, ele veio a ser roteirista disputado e dramaturgo de sucesso, além de cronista dos melhores. 

Não menos atento, o Walterson já se cansou de ver representantes do sexo feminino serem qualificadas de “vistosas”, à falta de adjetivo que as aparências não desmentissem. Quem nunca ouviu falar de uma fulana “vistosa”? Ou “arrumadinha”?, acrescenta o Rodrigo. Trata-se aí, porém, de prateleiras diferentes, pois está no ar a impressão de que a “vistosa” tem conta bancária menos rarefeita do que a “arrumadinha” – correspondente feminino, arrisco eu, do “trabalhador” e do “esforçado” de que fala o Mario. 

O Oscar, se ouve falar que alguém é “muito prendada”, não vai de meias palavras: “Um bucho”, fulmina ele. A Leusa, por sua vez, moça que além de “interessante” é bonita, chama atenção para as senhoritas e senhoras de quem se fala como sendo “lindas de rosto”. Elogiar o rosto, não raro com piedoso exagero, pode ser indisfarçável tentativa de silenciar em torno das demais partes do corpo. As “lindas de rosto” são quase sempre pessoas cheias de si, mas apenas no sentido físico da expressão. Com seus quilos a mais, costuma-se dizer, ainda, que são “fortes” e “saudáveis”, quando não “sacudidas”, além de “fofas” e “cheinhas”, como se almofadas fossem.

É o caso de amiga minha, gorda assumida que perdeu a conta das vezes em que alguém, no afã de ser simpático, terminou por elogiar seus olhos, após óbvio processo de eliminação de itens corporais menos elogiáveis. Bem humorada, ela dá de ombros, operação que faz balangar a banha de seus antebraços, sacoleja-se inteira numa dessas gargalhadas plenas, fluentes e tonitruantes de que só os verdadeiramente obesos são capazes – e conta que o mobiliário da sala de seu apartamento inclui, como ironia decorativa, uma daquelas balanças antigas de farmácia de enorme mostrador redondo e ponteiro capaz de atingir os 150 quilos. 

É um jeito, ela explica, de deixar as visitas à vontade ante o porte avantajado, quase hipopotâmico (quem diz é ela), da dona da casa. Não pretende tapar o sol com sua formidanda peneira. A jovem senhora diz também que no clube não se furta às solicitações da molecada para desabar fragorosamente na água, provocando, além de aplausos, um vagalhão que faz a piscina transbordar. Só se chateia quando, no restaurante, percebe olhos fiscalizadores postos no seu prato, seja ele uma untuosa massa (“olha aí, depois vem reclamar...”, imagina ela o comentário) ou uma inofensiva salada (“ah, já não era sem tempo!”).

Mas voltemos aos gentis comentadores de “A feiura da pessoa interessante”. O José Eduardo, que aliás volta e meia vejo cercado de moças muito mais que “interessantes”, dá notícia do adjetivo “simpático” aplicado a homens e mulheres cujo forte não seja a beleza física. Como um jogador de futebol – vá a comparação – que se destacasse não pelo desempenho em campo, mas pela assiduidade aos treinos ou o brilho das chuteiras. Atleta chinfrim, o camarada – mas que profissional correto e aplicado! A comparação vale também para o sujeito que escreve mal, mas com uma letra...

A observação do José Eduardo me trouxe à memória uma senhora de minhas relações, já falecida, que passou cada minuto da vida na procura das virtudes físicas e imateriais em cada representante do gênero humano com o qual teve contato. Lembro-me do esforço cristão que ela fazia para minerar no semelhante uma qualidade que fosse. Se não encontrava, baixava os olhos, compungida, e deixava pingar uma avaliação que, na contramão das boas intenções, equivalia à mais corrosiva pá de cal: 

“É uma pessoa simpática, coitada...” 

Nunca vi quem levasse tão longe o comedimento verbal. Em sua conversa, dava voltas e mais voltas para não pronunciar determinadas palavras. Amante? Melhor calar o bico. Quando era impossível não falar em câncer, recorria à fórmula “aquela doença” – qual outra poderia ser? Certa vez, quando lhe perguntei por um amigo comum que sumira de circulação, foi nestes termos que ela satisfez a minha curiosidade:

“Não está sabendo? Abriram e fecharam, coitado...”

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